Quase metade dos lares brasileiros tem uma mulher como pessoa responsável. Entender essa realidade é falar de renda, trabalho, saúde e direitos.
Em 2010, de cada dez lares brasileiros, cerca de quatro tinham uma mulher como pessoa responsável (38,7%). Doze anos depois, eram praticamente cinco. Segundo o Censo 2022, do IBGE, as mulheres já respondem por 49,1% das unidades domésticas do país, o equivalente a 36 milhões de lares.
O número revela uma transformação profunda nas famílias brasileiras. Mas, sozinho, não conta a história inteira. Quem são essas mulheres? Com quanta renda sustentam suas casas? Quem divide com elas o cuidado com os filhos? E o que essa sobrecarga provoca na saúde de quem cuida?
Neste artigo, reunimos dados de fontes oficiais e de pesquisas reconhecidas para responder a essas perguntas, com atenção especial a um grupo que concentra muitos desses desafios: as mães solo.
O que significa “chefe de família”?
A expressão “chefe de família” é comum no dia a dia, mas não é a que o IBGE usa para medir quem está à frente dos lares brasileiros. Nas pesquisas oficiais, o termo é a pessoa responsável pelo domicílio. A troca de palavras reflete uma mudança na forma de entender as famílias.
Em levantamentos mais antigos, a ideia de chefia estava ligada ao sustento financeiro. Um manual de pesquisa do IBGE de 1974 definia o chefe como o principal amparo da família, ou outra pessoa assim considerada pelos demais moradores.
Segundo um estudo do próprio instituto, a palavra também carregava a noção de autoridade sobre os assuntos da casa. A partir dos anos 1990, o IBGE passou a adotar “pessoa de referência” e, depois, “pessoa responsável”, termo bem aceito pelos entrevistados.
Responsável pelo domicílio não é sinônimo de quem ganha mais
Hoje, de acordo com as notas metodológicas do Censo 2022, a pessoa responsável é aquela, com 12 anos ou mais, cuja responsabilidade sobre o domicílio é reconhecida pelos outros moradores. O critério não é a renda nem o salário mais alto. É o reconhecimento de quem ocupa esse lugar dentro de casa.
Na prática, como explicou o pesquisador do IBGE Marcio Minamiguchi na apresentação dos resultados, quem responde ao questionário costuma se identificar como essa pessoa. A partir dela, o recenseamento registra a relação de parentesco ou de convivência de todos os demais moradores.
Isso ajuda a ler os números com mais precisão. Quando o Censo mostra que quase metade dos lares tem uma mulher como responsável, o dado não diz necessariamente que ela tem a maior renda da casa. Ele indica que ela é reconhecida como a pessoa de referência daquele núcleo: quem organiza, decide e responde pelo lar.
Lares maiores
O Censo 2022 também mostra que os lares liderados por mulheres têm uma composição diferente. Entre as unidades domésticas com uma mulher como responsável, 18,8% são do tipo estendido e 60,6% são nucleares. Entre as lideradas por homens, os percentuais são de 12,1% e 67,6%. Na leitura do próprio IBGE, isso indica que as mulheres tendem a responder por domicílios maiores.
Unidades estendidas são aquelas em que, além da pessoa responsável, de um eventual cônjuge e dos filhos, vivem outros parentes. Segundo o IBGE, a presença de netos, por exemplo, costuma indicar uma avó ou um avô à frente da casa, com diferentes gerações convivendo no mesmo espaço.
Esse retrato aparece em um país onde o modelo tradicional de família perdeu espaço. As unidades formadas por pessoa responsável, cônjuge e filhos do casal caíram de 41,3% em 2010 para 30,7% em 2022. As famílias brasileiras estão mais diversas, e as mulheres estão no centro de muitas delas, com mais pessoas sob seus cuidados.
Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM 2024), do Ministério das Mulheres, que compila informações da PNAD Contínua do IBGE, as mulheres eram maioria entre os responsáveis por domicílios com renda de até um salário mínimo por pessoa em 2022. Nas faixas acima, a situação se invertia, e os homens passavam a ser maioria.
A diferença aparece também na base da pirâmide. Entre os lares chefiados por mulheres, 28,6% viviam com até meio salário mínimo por pessoa. Entre os chefiados por homens, essa proporção era de 21,6%.
Há ainda uma parte da responsabilidade que não aparece em nenhum contracheque: o trabalho de cuidado. Em 2022, as mulheres dedicavam em média 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Os homens, 11,7 horas.
O mesmo relatório mostra que a renda pesa de forma desigual nessa conta. Entre as mulheres das famílias mais pobres, a média chegava a 24,8 horas semanais, e caía para 14,9 horas entre as de renda mais alta. Para os homens, a variação era pequena: de 12,4 para 10,1 horas. Na análise do Ministério, isso revela quem de fato responde por essas tarefas dentro de casa. Quando há dinheiro, o trabalho é repassado a outras pessoas ou serviços. Quando não há, ele fica com elas.
Ser a pessoa responsável pelo domicílio, portanto, raramente é um privilégio. Para muitas brasileiras, significa sustentar e cuidar ao mesmo tempo, com menos recursos.
Mães solo: quem são
Entre as mulheres que chefiam lares no Brasil, há um grupo em que sustento e cuidado se concentram de forma ainda mais intensa: as mães solo. Segundo estudo da economista Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), feito com base nos microdados da PNAD Contínua do IBGE, o número de domicílios chefiados por mães solo passou de 9,6 milhões em 2012 para 11,3 milhões em 2022.
São 1,7 milhão de famílias a mais em dez anos, um crescimento de 17,8%. No fim de 2022, essas famílias correspondiam a 14,9% de todos os domicílios do país.
O estudo considera como chefiados por mães solo os domicílios em que a pessoa de referência é uma mulher com filhos e sem cônjuge morando na casa.
Por que “mãe solo”, e não “mãe solteira”
“Solteira” descreve um estado civil. “Solo” descreve uma condição de vida. Uma mulher pode ser divorciada, viúva ou até casada no papel e, ainda assim, criar os filhos sozinha. Da mesma forma, uma mulher solteira pode dividir a criação com o pai da criança.
Na análise do FGV Ibre, a pesquisadora explica por que prefere o termo “mãe solo”: ele é mais preciso e mais amplo, porque expressa a solidão e os desafios de mães que não têm cônjuge e contam com pouca ou nenhuma rede de apoio. Para ela, o “solo” não fala só da ausência de um companheiro, mas do fato de todas as responsabilidades da família recaírem sobre uma única pessoa.
A escolha das palavras também tem uma dimensão de respeito. A expressão “mãe solteira” costuma vir acompanhada de julgamentos sobre a vida afetiva da mulher. “Mãe solo” desloca o foco para o que de fato importa: quem assume, na prática, a criação dos filhos.
Um crescimento com cor: o recorte racial
O aumento das mães solo na última década não aconteceu de forma igual entre todas as mulheres. De acordo com o estudo, 90% desse crescimento veio de mães solo pretas e pardas, que passaram de 5,4 milhões para 6,9 milhões entre 2012 e 2022. No mesmo período, o número de mães solo brancas e amarelas ficou relativamente estável.
As desigualdades também aparecem na escolaridade e na renda. Entre as mães solo negras, 58,7% têm no máximo o ensino fundamental completo, e apenas 8,9% concluíram o ensino superior. Entre as brancas e amarelas, a proporção com ensino superior é de 21,4%, mais que o dobro. No fim de 2022, o rendimento médio das mães solo brancas ou amarelas era de R$ 2.772, enquanto o das mães solo negras era de R$ 1.685.
Dados oficiais reunidos pelo Ministério das Mulheres apontam na mesma direção. Das 4,3 milhões de mulheres que chefiavam domicílios sem cônjuge e com filhos de até 14 anos em 2022, 65,8% eram pretas ou pardas.
Os números mostram que não é possível discutir a maternidade solo no Brasil sem considerar a desigualdade racial. As duas questões se somam e ampliam as barreiras enfrentadas por milhões de mulheres.
Sozinhas em casa: a ausência de rede de apoio
Ser mãe solo não significa apenas não ter um companheiro. Para a maioria dessas mulheres, significa não ter nenhum outro adulto em casa para dividir as tarefas. Segundo o FGV Ibre, 72,4% das mães solo vivem em domicílios monoparentais, só com os filhos, sem parentes ou outras pessoas que poderiam ajudar a equilibrar família, trabalho e vida pessoal.
A falta de apoio dentro de casa tem efeitos diretos fora dela. No último trimestre de 2022, 29,4% das mães solo de 15 a 60 anos estavam fora da força de trabalho. Entre as que tinham filhos de até cinco anos, a proporção subia para 32,4%. Nessa fase, o cuidado é mais intenso e exige dedicação quase exclusiva.
Muitas vezes, essa sobrecarga começa cedo. O estudo mostra que 57% das mães solo de 15 a 60 anos tiveram o primeiro filho antes dos 26 anos, período decisivo para concluir os estudos. Entre as que foram mães aos 15 anos ou menos, apenas 3% chegaram ao ensino superior completo. No conjunto, mais da metade das mães solo (54,3%) tem no máximo o ensino fundamental completo.
Sem tempo, sem rede e com menos oportunidades de estudo, muitas dessas mulheres enfrentam um ciclo difícil de romper. E as consequências aparecem no trabalho e na renda, como mostra a próxima seção.
Trabalho e renda: a conta que não fecha
Para as mães solo, trabalhar não é apenas uma escolha profissional. Na maioria das vezes, é a única fonte de sustento da casa. O estudo do FGV Ibre lembra que, por não terem com quem dividir as despesas nem uma rede de apoio para conciliar maternidade, estudo e trabalho, essas mulheres enfrentam desafios extras para entrar e permanecer no mercado. Os números mostram como essa equação pesa no orçamento e na rotina.
Rendimentos menores e desigualdade dentro do próprio grupo
O FGV Ibre comparou o rendimento médio do trabalho de diferentes arranjos familiares no fim de 2022. A renda das mães solo era 39% menor que a dos homens casados com filhos e 20% menor que a das mulheres casadas com filhos. A diferença já existia em 2019, ou seja, não é um efeito pontual.
A comparação com as mães casadas ajuda a entender o problema. Ser mulher e ter filhos já impõe barreiras no mercado de trabalho. Quando a mãe cria os filhos sozinha, essas barreiras se somam à falta de tempo e de apoio.
Entre as próprias mães solo, a desigualdade também é grande. Como mostramos na seção anterior, a raça é um dos principais fatores de diferença de renda. Outro é a idade em que a mulher se tornou mãe. Segundo o estudo, mães solo que tiveram o primeiro filho por volta dos 27 anos tinham rendimento médio de cerca de R$ 1.700. Entre as que foram mães aos 15 anos ou menos, a média era de R$ 800, menos da metade. Nesse cálculo, as mães sem trabalho entram com renda zero, o que mostra que o efeito inclui tanto salários menores quanto mais dificuldade de conseguir uma ocupação.
Quando a maternidade chega cedo, os estudos costumam ser interrompidos, e essa perda acompanha a mulher por toda a vida profissional.
Informalidade como saída possível
Para conciliar os cuidados com os filhos e a necessidade de renda, muitas mães solo procuram trabalhos com horários mais flexíveis. Muitas vezes, essa flexibilidade só é encontrada na informalidade. No fim de 2022, cerca de 45% das mães solo que estavam trabalhando não tinham vínculo formal.
A saída tem um custo alto. Como aponta o FGV Ibre, os postos informais costumam pagar menos e não oferecem proteção social. Isso significa trabalhar sem carteira assinada e, em geral, sem acesso a direitos como férias remuneradas, 13º salário e licença-maternidade, além de ficar sem renda em caso de doença ou demissão. A informalidade resolve o problema do horário, mas aumenta a vulnerabilidade de quem já sustenta a casa sozinha.
Sem creche, sem trabalho: o peso dos filhos pequenos
A idade dos filhos faz diferença. Entre as mães solo de 15 a 60 anos, 29,4% estavam fora da força de trabalho no fim de 2022. Entre as que tinham filhos de até cinco anos, a proporção chegava a 32,4%, e o desemprego subia para 10%. Para as mães solo negras com filhos pequenos, a situação era ainda mais difícil: 34,6% estavam fora da força de trabalho e 11,6%, desempregadas.
A falta de creche ajuda a explicar esses números. Segundo levantamento do Todos Pela Educação com dados da PNAD Contínua do IBGE, apenas 41,2% das crianças de 0 a 3 anos frequentavam a educação infantil em 2024. A meta do Plano Nacional de Educação era de pelo menos 50%.
O problema não é só a escolha das famílias. Em 2024, 19,7% das crianças dessa idade, cerca de 2,28 milhões, estavam fora da creche por dificuldades de acesso, como falta de vaga, distância ou recusa por causa da idade. Entre os bebês de 0 e 1 ano, apenas 18,6% eram atendidos, e um em cada quatro estava fora por esses motivos.
A desigualdade de renda também aparece aqui. Entre as crianças de 0 a 3 anos das famílias 20% mais pobres, só 30,6% frequentavam a educação infantil. Entre as 20% mais ricas, eram 60%. Ou seja, justamente as famílias que mais dependem da creche pública para que a mãe possa trabalhar são as que menos conseguem acesso.
Não por acaso, o próprio estudo do FGV Ibre aponta a oferta de creches ajustada à demanda como um dos caminhos para que mais mães voltem ao mercado de trabalho, ao lado de programas de requalificação e de iniciativas das empresas para conciliar maternidade e emprego.
Saúde: o custo invisível da sobrecarga
Renda baixa, trabalho informal e falta de creche são problemas que aparecem nas estatísticas. O impacto de tudo isso sobre a saúde de quem sustenta e cuida da casa sozinha é mais difícil de enxergar. Ele não aparece no contracheque nem no censo, mas aparece nos consultórios, nos serviços públicos de saúde e na rotina de milhões de mulheres.
“Não somos guerreiras, somos sobrecarregadas”
É comum ouvir que mães solo são “guerreiras”. A expressão tenta ser um elogio, mas pode esconder um problema: transforma em virtude individual uma sobrecarga que é coletiva.
Profissionais da rede pública de saúde mental questionam essa ideia. A assistente social Aline Cordeiro Moreira, que atua em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) geridos pelo Hospital Israelita Albert Einstein, relatou à Agência Einstein que a sensação de sobrecarga aparece com frequência entre as mães atendidas nesses serviços. Nos atendimentos, ela costuma lembrar que essas mulheres “não são guerreiras, mas mulheres sobrecarregadas do cuidado”. Para ela, é a própria organização da sociedade que coloca as mulheres nessa condição.
A mesma reportagem aponta a construção de uma rede de apoio como a principal proteção contra o adoecimento mental dessas mães. Essa rede pode incluir familiares, amigos, vizinhos e instituições, e faz diferença quando surgem desafios práticos, emocionais ou financeiros.
Os dados oficiais mostram que a saúde mental das mulheres brasileiras já parte de um patamar mais delicado. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, do IBGE, 10,2% das pessoas de 18 anos ou mais tinham recebido diagnóstico de depressão por profissional de saúde mental. Entre as mulheres, eram 14,7%. Entre os homens, 5,1%. A proporção entre elas é quase o triplo.
Esse número precisa ser lido com cuidado. A PNS mede diagnósticos, ou seja, depende de a pessoa ter buscado e conseguido atendimento. Ainda assim, a diferença entre os sexos é grande e consistente.
Uma das explicações discutidas por pesquisadores é o trabalho de cuidado. Como mostramos antes, segundo dados do IBGE reunidos pelo Ministério das Mulheres, as mulheres dedicam em média cerca de 21 horas por semana a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, quase o dobro dos homens.
Estudos acadêmicos ajudam a aprofundar essa relação. Uma pesquisa de base populacional com 848 mulheres em Campinas (SP), publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva, identificou prevalência de transtornos mentais comuns, como ansiedade e sintomas depressivos, de 18,7%.
Os índices eram mais altos entre mulheres separadas, divorciadas ou viúvas, com três ou mais filhos, negras e de menor renda. Outro estudo, feito em Feira de Santana (BA) e publicado na Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, encontrou prevalências mais altas entre mulheres que não recebiam nenhuma ajuda nas tarefas domésticas.
São estudos locais, que mostram associações e não relações de causa e efeito. Mas o padrão que revelam conversa diretamente com o perfil das mães solo: mulheres sem cônjuge, com menos renda e sem ajuda em casa.
Uma pesquisa mais recente da organização Think Olga reforça o quadro. No relatório Esgotadas, feito com 1.078 mulheres de 18 a 65 anos, 45% disseram ter diagnóstico de ansiedade, depressão ou outro transtorno mental. As preocupações financeiras foram apontadas como o principal fator de sofrimento, seguidas pela dupla ou tripla jornada de trabalho.
Apesar dessas evidências, ainda sabemos pouco sobre a saúde das mães solo de forma específica. Os resultados divulgados das grandes pesquisas nacionais de saúde trazem recortes por sexo, idade e região, mas não pelo arranjo familiar. Na prática, isso significa que o país conta quantas mães solo existem e quanto elas ganham, mas não sabe com a mesma precisão como elas estão de saúde.
Também falta atualização. Os dados de depressão da PNS citados aqui são de 2019, antes da pandemia de covid-19, que alterou a rotina de cuidado das famílias.
Dados sobre a saúde física e mental das mães solo, o acesso delas a atendimento psicológico e o tempo que têm para descansar poderiam orientar políticas públicas mais precisas. Enquanto essas informações não existem, a sobrecarga continua sendo um custo pago em silêncio, e quase sempre pelas mesmas pessoas.
Direitos e políticas públicas: o que existe e o que falta
Os dados das seções anteriores mostram um retrato de sobrecarga: menos renda, mais trabalho informal, pouco acesso à creche e impactos na saúde. Diante disso, uma pergunta se impõe: o que o Estado brasileiro já garante às mulheres que chefiam suas famílias? E o que ainda está em construção?
Alguns direitos valem para todas as famílias, mas têm peso especial para as mães solo.
O primeiro é o acesso à educação infantil. A Constituição Federal estabelece como dever do Estado a oferta de creche e pré-escola para crianças de até 5 anos. Como mostramos na seção sobre trabalho e renda, esse direito ainda não chega a todas as famílias que precisam dele.
O segundo é a pensão alimentícia. O Código Civil prevê que pais e mães são responsáveis pelo sustento dos filhos, mesmo quando não vivem com eles. Na prática, a pensão é um dos principais instrumentos para que a responsabilidade financeira não recaia apenas sobre quem cria a criança no dia a dia.
O terceiro é a licença-maternidade de 120 dias, garantida pela Constituição. Aqui aparece um limite importante: o direito vale para trabalhadoras com vínculo formal e contribuintes da Previdência. Para as mães solo que estão na informalidade, cerca de 45% das que trabalham, segundo o estudo do FGV Ibre, essa proteção muitas vezes não existe.
Duas políticas federais reconhecem de forma direta o papel das mulheres à frente dos lares.
No Bolsa Família, a lei que reestruturou o programa em 2023 (Lei nº 14.601) prevê que o pagamento seja feito preferencialmente à mulher. Segundo informe do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) de 2026, das 18,7 milhões de famílias atendidas, 15,8 milhões têm uma mulher como responsável familiar.
No Minha Casa, Minha Vida, a Lei nº 14.620, de 2023, inclui as famílias que têm a mulher como responsável entre os públicos prioritários da modalidade subsidiada. A lei também determina que contratos e registros sejam feitos preferencialmente em nome da mulher. Quando ela é chefe de família, pode assinar sem autorização do cônjuge. Em caso de separação ou divórcio, o imóvel fica com ela, salvo se a guarda dos filhos for atribuída exclusivamente ao pai. Segundo o Ministério das Mulheres, essas regras não valem para os financiamentos feitos com recursos do FGTS.
O debate sobre uma política de cuidados
Durante muito tempo, o cuidado com crianças, idosos e pessoas com deficiência foi tratado no Brasil como um assunto privado, resolvido dentro de cada casa e, quase sempre, pelas mulheres. Esse cenário começou a mudar no plano legal em dezembro de 2024, com a sanção da Lei nº 15.069, que institui a Política Nacional de Cuidados.
A lei reconhece o cuidado como um direito e define como objetivo a corresponsabilidade entre homens e mulheres e entre famílias, Estado, setor privado e sociedade civil. Segundo a Agência Senado, um dos objetivos da política é redistribuir o trabalho de cuidado, que historicamente recai sobre as mulheres, e conciliar o trabalho remunerado com as necessidades de cuidado.
O público prioritário inclui crianças e adolescentes, com atenção especial à primeira infância, pessoas idosas e pessoas com deficiência que precisam de apoio, além de quem cuida, de forma remunerada ou não. A lei não cita as mães solo de forma específica, mas elas estão contempladas como cuidadoras não remuneradas.
A política foi regulamentada pelo Decreto nº 12.562, de julho de 2025. Em dezembro do mesmo ano, o governo federal lançou o Plano Nacional de Cuidados, apresentado com o nome Brasil que Cuida. Segundo o MDS, o plano reúne 79 ações organizadas em cinco eixos, com investimento previsto de R$ 25 bilhões até 2027. Um dos eixos trata justamente da compatibilização entre trabalho remunerado, educação e necessidades familiares de cuidado, ponto central para as mães solo.
A existência de uma lei e de um plano é um passo relevante. Ainda assim, a política é recente, e seus efeitos dependem da implementação, da adesão de estados e municípios e da continuidade dos recursos ao longo do tempo. Acompanhar essa agenda e cobrar dados sobre seus resultados também é uma forma de participação.
Por que essa pauta importa para o ICLT
O Instituto Camila e Luiz Taliberti nasceu em 2019, por iniciativa de familiares e amigos de Camila e Luiz, vítimas do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG). Desde então, trabalha para continuar o legado dos dois, defendendo os direitos humanos e o meio ambiente.
Uma das frentes centrais do ICLT é o empoderamento de grupos em situação de vulnerabilidade, especialmente mulheres. Os dados deste artigo mostram por que essa escolha faz sentido. A desigualdade de gênero não aparece só em grandes violações de direitos. Ela também está no cotidiano: na creche que não tem vaga, no trabalho sem carteira, nas horas de cuidado que ninguém contabiliza, no cansaço que vira adoecimento.
Para o ICLT, direitos humanos, cuidado e justiça social caminham juntos. Não é possível falar em um futuro mais justo e sustentável enquanto milhões de mulheres sustentam sozinhas suas famílias, sem rede de apoio e sem políticas que reconheçam o valor do trabalho que realizam.
Rede de apoio também se constrói coletivamente
Ao longo deste artigo, uma ideia apareceu várias vezes: a falta de rede de apoio pesa sobre a renda, o trabalho e a saúde das mulheres que chefiam suas famílias. Mas essa rede não depende só de cada família. Ela também é construída por políticas públicas, por organizações da sociedade civil, por empresas e por comunidades que decidem dividir a responsabilidade pelo cuidado.
Essas mulheres não são apenas números em uma pesquisa. São trabalhadoras, mães, avós e cuidadoras que organizam a vida de milhões de pessoas todos os dias. Dar visibilidade a essa realidade é o primeiro passo para que o cuidado deixe de ser um peso individual e passe a ser um compromisso coletivo.
Quem cuida de quem cuida?
Os números mostram que a chefia feminina dos lares deixou de ser exceção no Brasil. Mostram também que, para muitas mulheres, especialmente as mães solo, negras e de baixa renda, liderar a casa significa acumular responsabilidades com poucos recursos e quase nenhum apoio.
Há avanços, mas ainda faltam vagas em creches, proteção para quem trabalha na informalidade e dados sobre a saúde de quem cuida. Mudar esse cenário exige informação, debate público e participação.
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