Existe uma substância que move aviões, aquece casas, fabrica plásticos, fertiliza plantações e alimenta guerras. Ela está no combustível do carro que você abastece, no preço do frango no mercado e na tensão diplomática que acompanha qualquer noticiário internacional. Estamos falando do petróleo.
A dependência do mundo moderno em relação ao petróleo raramente aparece de forma explícita no cotidiano. Ela se manifesta nos números da bomba de gasolina, no encarecimento de produtos industrializados e, de maneira menos óbvia, nas decisões que os governos tomam sobre com quem se aliar, no que investir e, em casos extremos, contra quem guerrear. Compreender essa cadeia é condição básica para entender o que está em jogo em conflitos como o do Oriente Médio.
Não se trata de um assunto reservado a economistas ou analistas geopolíticos. Quando uma tensão militar se intensifica a milhares de quilômetros daqui, os efeitos chegam ao Brasil em forma de inflação, volatilidade cambial e pressão sobre as contas externas.
O que o petróleo une: energia e conflito
Para entender por que guerras eclodem ou se prolongam em certas regiões do planeta, é preciso olhar para o mapa da energia global. O Oriente Médio concentra mais de 48% das reservas mundiais comprovadas de petróleo.
Por essa região está o Estreito de Ormuz, uma faixa marítima de pouco mais de 50 quilômetros de largura que, segundo o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), é responsável pelo trânsito de aproximadamente 25% de todo o petróleo exportado no mundo, além de volumes expressivos de gás natural da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, do Catar e de Omã.
Bloqueios ou ataques à infraestrutura dessa região têm o potencial de sacudir economias inteiras. Grandes importadores asiáticos, como China, Índia e Japão, seriam os primeiros a sentir os impactos de qualquer interrupção severa no fornecimento. Segundo o IBP, “a perda de competitividade dessas economias e a pressão sobre os preços do petróleo e do gás natural são consequências diretas caso as hostilidades se prolonguem.”
É nesse cenário que o conflito deixa de ser apenas uma tragédia humanitária e passa a ser também um evento econômico de escala global. O aprofundamento das tensões no Oriente Médio, portanto, não é indiferente para o Brasil.
O país é o nono maior exportador mundial de petróleo e destina 67% do seu volume exportado à Ásia, exatamente o conjunto de economias mais vulnerável a uma crise na região. Qualquer desestabilização prolongada nesse mercado reverbera diretamente nos planos de investimento, na balança comercial e na estratégia energética brasileira.
Petróleo e conflito, portanto, não são temas paralelos. Eles se alimentam mutuamente, e compreender essa relação é o primeiro passo para entender por que o que acontece no Oriente Médio diz respeito a todo mundo.
Gasolina e inflação em casa
O conflito no Oriente Médio pode parecer distante, mas seus efeitos chegam ao Brasil antes mesmo que o noticiário internacional termine. A dinâmica é quase automática: tensão geopolítica na região, alta no preço do petróleo, valorização do dólar, pressão nos combustíveis, inflação. Uma cadeia que começa nos mares do Golfo Pérsico e termina no bolso de quem abastece o carro, paga o frete do mercado ou cozinha com gás.
Quando os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã se intensificaram no início de 2025, essa sequência se confirmou com velocidade impressionante. O barril do petróleo Brent chegou a US$ 119,50, maior patamar desde meados de 2022, e o dólar rompeu a barreira dos R$ 5,15 logo na abertura dos mercados. Em relação ao fechamento do ano anterior, a alta acumulada da commodity superava 27%.
Segundo André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), a gasolina responde por cerca de 5% do IPCA, o índice que mede a inflação oficial do Brasil.
Isso significa que qualquer movimento expressivo no preço dos combustíveis tem capacidade de contaminar toda a cesta de bens e serviços que o brasileiro consome. A pressão, alerta o especialista, tende a aparecer no cotidiano em cerca de um mês após o início do conflito, a depender de sua duração e intensidade.
O petróleo não é apenas combustível. Ele é matéria-prima de plásticos, borracha, fertilizantes, medicamentos e insumos industriais dos mais variados. Quando seu preço sobe, toda essa cadeia sente o impacto.
O exemplo mais direto é o diesel. Um aumento no seu preço eleva o custo do frete rodoviário, que no Brasil responde pelo transporte da maior parte dos alimentos, insumos e produtos industrializados.
O resultado aparece nas prateleiras dos supermercados, nas notas fiscais das fábricas e no custo de produção do agronegócio. Não por acaso, o presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, Flávio Roscoe, alertou que “qualquer instabilidade em rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz repercute nos fretes, nos seguros e na energia” da indústria brasileira.
O agronegócio é outro setor altamente exposto. Além do custo de funcionamento das máquinas agrícolas movidas a diesel, o setor depende fortemente de fertilizantes químicos importados.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que adubos e fertilizantes responderam por 93,5% do total importado pelo Brasil do Irã em janeiro de 2025, um dado que revela o quanto a relação entre conflito e custo da comida é mais estreita do que parece.
Há ainda o efeito sobre a energia elétrica. As termelétricas, acionadas especialmente em períodos de seca quando os reservatórios das hidrelétricas ficam baixos, funcionam a combustíveis. Uma alta nos preços do petróleo pressiona também a conta de luz dos brasileiros, mais um canal silencioso pelo qual a guerra chega ao cotidiano de quem está a mais de dez mil quilômetros do conflito.
Em momentos de tensão geopolítica, investidores ao redor do mundo tendem a migrar para ativos considerados mais seguros, e o dólar historicamente ocupa esse papel. A saída de capital de economias emergentes valoriza a moeda americana e deprecia moedas locais, o que encarece as importações e adiciona mais combustível inflacionário ao ambiente já pressionado pelo petróleo.
O cenário também impõe desafios à política monetária. Caso os preços do petróleo e do dólar permaneçam elevados por um período prolongado, o Banco Central pode se ver obrigado a manter a taxa Selic em patamares mais altos por mais tempo, freando o crédito, o consumo e o crescimento da economia.
A especialista em mercados financeiros Lilian Linhares, da Rio Negro Family Office, avalia que “caso o conflito se prolongue, podemos ver ajustes na magnitude dos cortes de juros ou até na duração do ciclo de redução no Brasil.”
Raízes do conflito
Para entender por que essa região é o epicentro de tantas tensões, é preciso recuar no tempo. A relação entre petróleo e poder no Oriente Médio não começou ontem, ela foi construída ao longo de décadas de interesses sobrepostos, alianças estratégicas e intervenções militares.
Na década de 1930, empresas americanas como a Standard Oil of California, que décadas mais tarde se tornaria a Chevron, iniciaram a exploração de petróleo na Arábia Saudita, num momento ainda embrionário da formação do Estado saudita. Esse vínculo entre capital privado americano e reservas árabes moldaria décadas de política externa dos Estados Unidos para a região.
A lógica era simples: quem controla o petróleo controla a industrialização. E quem controla a industrialização controla o equilíbrio de poder global. Durante a Guerra Fria, esse raciocínio levou os EUA a apoiar regimes, financiar golpes e projetar força militar em toda a região, sempre com o objetivo de manter o fluxo de energia alinhado aos interesses ocidentais.
Um exemplo emblemático foi a Operação Ajax, em 1953, quando a CIA e o serviço secreto britânico orquestraram a derrubada do primeiro-ministro iraniano Mohammad Mossadegh, que havia nacionalizado o petróleo do país e o substituíram pelo xá Reza Pahlavi, favorável ao Ocidente.
Décadas depois, o Oriente Médio continua sendo o campo de disputa mais intenso da geopolítica global. O motivo é estrutural: a região concentra mais de 48% das reservas mundiais comprovadas de petróleo. Por ela passam as rotas marítimas que abastecem as maiores economias do mundo. E por ela circula boa parte do gás natural que aquece casas e move indústrias da Europa à Ásia.
Compreender essas raízes históricas é a base para entender por que conflitos que parecem locais têm consequências globais e por que o petróleo, mais do que uma commodity, é uma questão de poder, soberania e sobrevivência econômica para nações inteiras.
História de disputas: do Golfo à OPEP
Para entender o Oriente Médio contemporâneo, é preciso percorrer uma linha do tempo marcada por conflitos cujo pano de fundo raramente aparece nos títulos das notícias: o controle sobre as maiores reservas de hidrocarbonetos do planeta.
O ponto de virada mais emblemático dessa história foi o embargo de 1973. Naquele ano, os países árabes da OPEP interromperam o fornecimento de petróleo aos Estados Unidos e a aliados ocidentais como represália ao apoio prestado a Israel na Guerra do Yom Kippur.
O resultado foi devastador para as economias industrializadas: filas imensas nos postos de gasolina, racionamento de energia e uma recessão que abalou décadas de crescimento ininterrupto no Ocidente. Pela primeira vez, o mundo compreendeu que o petróleo era uma arma geopolítica tão poderosa quanto qualquer arsenal militar.
Essa lição não foi esquecida. Quando o Iraque invadiu o Kuwait em 1990, os Estados Unidos responderam com uma coalizão militar de escala inédita desde a Segunda Guerra. A Primeira Guerra do Golfo foi a demonstração inequívoca de que os EUA estavam dispostos a usar força militar para garantir o fluxo de petróleo e preservar a estabilidade das rotas energéticas globais.
A mesma lógica estaria presente, doze anos depois, na invasão do Iraque em 2003, quando a dependência energética ocidental do Oriente Médio era ainda significativa e o controle sobre as reservas iraquianas representava um ativo estratégico de primeira ordem.
A OPEP, criada em 1960 para dar aos países produtores maior controle sobre seus próprios recursos, foi durante décadas o principal instrumento coletivo de poder dos países árabes no tabuleiro global. Ao coordenar a produção e os preços, o cartel conseguia influenciar diretamente o ritmo das economias industrializadas.
Contudo, essa força foi sendo gradualmente corroída. Na última década, a produção de países fora do bloco cresceu de forma acelerada nos Estados Unidos e no Canadá, impulsionada pela exploração do xisto betuminoso, e em países como Brasil e Guiana, através da extração em águas profundas.
Em 2023, o Departamento de Energia dos EUA registrou uma produção recorde de 12,9 milhões de barris por dia, superando qualquer marca histórica de qualquer nação.
A OPEP, mesmo reduzindo voluntariamente sua oferta em 2,2 milhões de barris diários, não conseguiu segurar a queda dos preços, sinal claro de que seu poder de arbitragem sobre o mercado global não é mais absoluto.
Poder geopolítico: petrodólares e alianças frágeis
Se o petróleo é o recurso, os petrodólares são o instrumento de poder que ele gera. Países que acumularam fortunas com a exportação de óleo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar, transformaram essa riqueza em influência diplomática, em investimentos estratégicos pelo mundo e, sobretudo, em capacidade de negociar proteção militar com as grandes potências ocidentais.
A Arábia Saudita é o caso mais ilustrativo dessa equação. Como o maior exportador de petróleo árabe por décadas, o reino construiu uma relação de interdependência com os Estados Unidos que vai muito além do comércio de combustível: em troca de petróleo e de manter os preços denominados em dólares, a base do chamado sistema do petrodólar, Riade recebia proteção militar, acesso a armamentos de última geração e respaldo político em fóruns internacionais. Uma aliança transacional, pragmática e historicamente pouco afeita a princípios.
Essa fragilidade ficou evidente nos últimos anos. Os Acordos de Abraão, firmados em 2020 com mediação do governo Trump, promoveram a normalização das relações entre Israel e países como Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos, sem qualquer avanço concreto na questão palestina.
O que motivou esses acordos não foi uma mudança de valores, mas um cálculo estratégico preciso: esses países enxergaram na aproximação com Israel uma forma de ampliar a cooperação em defesa e inteligência, especialmente diante da ameaça iraniana, e de estreitar ainda mais os laços com Washington.
O cenário, no entanto, está se tornando mais complexo. A Rússia aprofundou sua presença militar na Síria e mantém cooperação ativa com o Irã, enquanto a China avança silenciosamente por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, financiando portos, ferrovias e infraestrutura energética em toda a região.
O acordo de cooperação de 25 anos firmado entre Pequim e Teerã em 2021, que prevê compra de petróleo iraniano com descontos expressivos em troca de investimentos chineses em refinarias e transporte, é um exemplo concreto de como novas alianças estão sendo tecidas à margem da influência americana.
Nesse tabuleiro, as alianças são sólidas apenas enquanto os interesses coincidem. A Arábia Saudita, que nunca chegou a ameaçar um novo boicote ao petróleo mesmo diante dos horrores da guerra em Gaza, ao contrário do que fez em 1973, demonstra que o pragmatismo econômico prevalece sobre qualquer solidariedade árabe declarada. O petróleo criou fortunas, mas as alianças que ele sustenta são, por natureza, condicionais e sujeitas a recalibração constante.
O preço ecológico da dependência
Toda vez que o mundo discute petróleo, o debate gira em torno de preços, reservas e geopolítica. O que raramente entra em cena com a mesma urgência é a conta ambiental que essa dependência acumula, e que, ao contrário das flutuações de mercado, não se resolve com um acordo diplomático ou uma decisão da OPEP.
O petróleo polui em todas as etapas de sua existência. Desde a perfuração dos poços até a queima final nos motores e fornos industriais, cada fase deixa rastros no ar, na água e no solo. A queima de combustíveis fósseis é responsável pela emissão de gases que intensificam o efeito estufa e aceleram as mudanças climáticas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a poluição associada ao petróleo pode estar relacionada a mais de 50 mil mortes prematuras por ano em todo o mundo, vítimas de uma guerra que não aparece nos noticiários, mas que acontece todos os dias nos pulmões de quem vive em centros urbanos congestionados ou próximo a refinarias.
A dimensão do problema se torna ainda mais concreta quando olhamos para desastres de derramamento. Em 2019, o Brasil viveu um episódio que expôs essa vulnerabilidade: manchas de petróleo atingiram mais de 500 praias do Nordeste e do Sudeste, contaminando cerca de 4,3 mil quilômetros de faixa litorânea e afetando quase 120 municípios.
Pescadores perderam sua fonte de renda, a fauna marinha sofreu danos permanentes e autoridades de saúde recomendaram que a população evitasse as áreas atingidas para prevenir problemas respiratórios e circulatórios.
O custo da limpeza e recuperação após desastres como esse pode chegar a bilhões de dólares anuais, segundo o Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA), um valor que raramente é contabilizado no preço que pagamos no posto de gasolina.
A urgência que o mercado ainda não precifica
O paradoxo central da dependência do petróleo é que seu custo real nunca está no preço de mercado. As externalidades ambientais, o aquecimento global, os desastres ecológicos, os problemas de saúde pública, os ecossistemas destruídos, são pagas pela sociedade como um todo, não pelos agentes que lucram com a commodity.
Enquanto o mundo debate sanções, rotas marítimas e estratégias militares no Oriente Médio, o relógio climático continua avançando. A transição para fontes de energia limpas, solar, eólica, hidrogênio verde é uma questão de segurança energética, de soberania nacional e, cada vez mais, de estabilidade econômica. Países que conseguirem reduzir sua dependência do petróleo serão menos vulneráveis às oscilações de um mercado que, como vimos, responde tanto a decisões geopolíticas quanto a movimentos especulativos de curto prazo. O preço ecológico da dependência do petróleo é real, crescente e desigualmente distribuído.
Emissões e mudanças climáticas aceleradas
Guerras custam vidas, destroem cidades e desestabilizam economias. Mas há uma vítima que raramente aparece nos relatórios de baixas: o clima. O conflito entre EUA, Israel e Irã no Oriente Médio adicionou uma dimensão inédita ao debate sobre mudanças climáticas, a de que a geopolítica dos combustíveis fósseis e a crise climática não são crises paralelas. São a mesma crise.
Uma análise conduzida pelo Instituto de Clima e Comunidade, compartilhada com o jornal The Guardian em março de 2026, calculou que apenas os primeiros 14 dias do conflito geraram aproximadamente 5 milhões de toneladas de emissões de gases de efeito estufa.
Para ter uma referência do que esse número significa: é o equivalente às emissões anuais somadas dos 84 países com menor pegada de carbono no planeta. Em duas semanas, uma guerra consumiu o que dezenas de nações inteiras emitem em um ano inteiro.
O maior componente dessas emissões veio da destruição de edificações civis. Com base em dados do Crescente Vermelho Iraniano, que registrou cerca de 20 mil edifícios danificados pelo conflito, os pesquisadores estimaram que só esse setor contribuiu com 2,4 milhões de toneladas de CO2 equivalente.
Em seguida vêm os combustíveis consumidos por aeronaves militares, bombardeiros que partiram de bases tão distantes quanto o oeste da Inglaterra para realizar ataques sobre o Irã, responsáveis por entre 529 mil toneladas adicionais de emissões nos primeiros dias.
Há ainda as imagens que chocaram o mundo: nuvens negras e chuva escura cobrindo Teerã após Israel bombardear quatro grandes depósitos de combustível nos arredores da cidade. Estima-se que entre 2,5 milhões e 5,9 milhões de barris de petróleo foram queimados nesses ataques e em retaliações semelhantes, emitindo cerca de 1,88 milhão de toneladas de CO2 equivalente diretamente na atmosfera, sem nenhum benefício energético, apenas destruição.
O contexto climático torna esses números ainda mais alarmantes. Em junho de 2025, cientistas estimaram que a humanidade poderia emitir o equivalente a 130 bilhões de toneladas de CO2 para ter ao menos 50% de chance de manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C. No ritmo atual de emissões globais, cerca de 40 bilhões de toneladas por ano, esse orçamento se esgotaria em 2028. A guerra chegou para acelerar esse relógio.
Patrick Bigger, diretor de pesquisa do Instituto de Clima e Comunidade e coautor da análise, foi direto ao ponto: cada ataque a uma refinaria ou a um petroleiro serve como evidência de que a geopolítica baseada em combustíveis fósseis é estruturalmente incompatível com um planeta habitável. A guerra, nessa leitura, não é um desvio da normalidade ,é a expressão mais violenta de um modelo energético que já deveria estar sendo superado.
O Golfo como zona de sacrifício ambiental
Além das emissões atmosféricas, o conflito ameaça transformar o Golfo Pérsico em uma das maiores catástrofes ecológicas marinhas da história recente. Organizações ambientais alertaram que cerca de 21 bilhões de litros de petróleo estão armazenados em navios bloqueados na região, uma bomba-relógio ecológica à espera de um incidente para explodir.
O Observatório de Conflitos e Meio Ambiente (CEOBS) registrou aproximadamente 300 incidentes com potencial impacto ambiental desde o início da guerra, incluindo ataques diretos a petroleiros. O Golfo Pérsico abriga mais de 2.000 espécies marinhas, dugongos, tartarugas, tubarões-baleia, corais e manguezais que funcionam como berçários para inúmeras espécies. A região concentra a segunda maior população mundial de dugongos, com entre 5 mil e 7,5 mil indivíduos. Um derramamento em larga escala poderia dizimá-la.
As características geográficas do Golfo agravam o risco. Com profundidade média de apenas 50 metros e conexão limitada com o Oceano Índico pelo Estreito de Ormuz, a renovação das águas pode levar entre dois e cinco anos, o que significa que contaminantes permanecem no ambiente por muito mais tempo do que em oceanos abertos.
O histórico reforça esse alerta: o derramamento de 11 milhões de barris durante a Guerra do Golfo de 1991 afetou 640 quilômetros de costa e ainda hoje serve de referência para estudos sobre recuperação ambiental de longa duração, que pode levar décadas.
O preço ecológico da dependência do petróleo, portanto, não se mede apenas em graus de temperatura ou partes por milhão de CO2. Ele se mede também em espécies extintas, em comunidades pesqueiras destruídas, em gerações futuras que herdarão um planeta menos habitável e em guerras que, ao mesmo tempo que consomem vidas, consomem o que resta do nosso orçamento climático.
Refugiados e migrações forçadas
Rola Atwi tinha 36 anos quando pegou os filhos e saiu correndo de casa no subúrbio de Haret Hreik, em Beirute, segundos antes de um ataque israelense destruir o imóvel. Desde então, a família passou a dormir em um passeio à beira-mar no oeste da cidade. Sua filha tem epilepsia e os sons das explosões desencadeiam convulsões. “Sinto-me entorpecida. Só quero que minha filha esteja em segurança”,disse ela à Deutsche Welle (DW), o serviço público internacional de jornalismo da Alemanha, em reportagem sobre a crise humanitária no Líbano.
A história de Rola não é uma exceção. É a regra. Em conflitos alimentados pela geopolítica do petróleo, as primeiras vítimas não são os mercados financeiros nem os preços das commodities, são as famílias que precisam decidir, em segundos, o que carregar antes de sair para o desconhecido.
O Líbano foi arrastado para o conflito quando o Hezbollah, apoiado pelo Irã, iniciou ataques a Israel em resposta à morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei. A escalada que se seguiu transformou uma tensão latente em crise humanitária de grande escala.
Segundo dados da ONU, mais de 750 mil pessoas foram deslocadas no país em poucas semanas, enquanto o número de mortes civis registradas superou 570, um dado que, segundo Kelly Petillo, gestora de programas para o Oriente Médio e Norte da África no Conselho Europeu de Relações Exteriores, provavelmente subestima a realidade, pois exclui refugiados não registrados e comunidades inteiras que fugiram sem deixar rastro nos sistemas oficiais.
O que torna o deslocamento no Líbano ainda mais grave é o contexto em que ele ocorre. O país vinha acumulando, desde 2019, uma sequência de crises econômicas e políticas que deixaram sua população em estado de exaustão crônica. Quando os bombardeios recomeçaram, não havia reservas, nem financeiras, nem emocionais, nem institucionais para absorver o choque.
Suzanne Takkenberg, diretora regional da organização Action Against Hunger com sede em Beirute, descreveu com precisão o que isso significa na prática: famílias já desgastadas por anos de dificuldades sendo colocadas novamente em movimento, com milhares dormindo em carros e espaços públicos, sem saber para onde ir e sem garantia de que o próximo lugar onde tentarem se abrigar não será o próximo alvo. A ausência de abrigos adequados e a precariedade dos serviços básicos aprofundam a vulnerabilidade.
No Irã, desde o início dos bombardeios americanos e israelenses em fevereiro de 2026, o ACNUR estimou que cerca de 3,2 milhões de pessoas foram deslocadas internamente, um número que eclipsa o pico anterior de 520 mil registrado em 2019.
Somados aos deslocamentos no Líbano, no Iêmen e em outros países da região, os países afetados pelo conflito já abrigam quase 25 milhões de pessoas deslocadas à força, segundo a agência da ONU para refugiados.
Países vizinhos ao Irã, como Turquia, Paquistão e Afeganistão, estão em estado de alerta para uma nova onda migratória. A Turquia, que já hospeda um dos maiores contingentes de refugiados do mundo, reforçou sua fronteira com muros, torres de vigilância e planos de contingência em três cenários distintos. O Paquistão, por sua vez, viu mais de 232 mil afegãos retornarem ao Afeganistão apenas em 2026, um fluxo que a escalada do conflito pode intensificar ainda mais, pressionando comunidades já em situação crítica.
O que os números não conseguem capturar
As estatísticas sobre deslocamento são necessárias, mas insuficientes. Elas contam os corpos em movimento, mas não conseguem medir o que se perde no caminho: a escola que a criança não vai mais frequentar, o tratamento médico que ficou para trás, a rede de apoio que se desfez com a fuga.
O porta-voz do UNICEF alertou que crianças em zonas de conflito “muitas vezes não podem esperar suprimentos críticos de nutrição ou de saúde”, e que a demora pode custar suas vidas. Para as populações já vulneráveis, o conflito não representa apenas um risco de morte imediata. Representa a destruição sistemática das condições que tornam a vida possível: água, abrigo, alimento, cuidado médico, dignidade.
No Líbano, o parlamento chegou a prorrogar seu próprio mandato por dois anos e adiou as eleições parlamentares, reconhecendo que não era possível organizar uma votação nacional em meio a deslocamentos em massa e bombardeios contínuos. É o colapso da normalidade política e ele começa, frequentemente, quando o preço do petróleo dispara e os interesses estratégicos das grandes potências se sobrepõem às vidas de quem mora onde o combustível do mundo é extraído.
A geopolítica do petróleo tem endereço. E muitas vezes, esse endereço é uma calçada em Beirute onde uma mãe dorme abraçada aos filhos esperando que a próxima explosão não seja a mais próxima.
A urgência da transição energética: saída para o caos
Toda vez que o preço do petróleo dispara em resposta a um conflito no Oriente Médio, o mundo recebe um lembrete de uma vulnerabilidade que já conhece há décadas, mas ainda não conseguiu superar: a dependência de uma única fonte de energia, concentrada em regiões politicamente instáveis, negociada em uma moeda que não controla e sujeita a interrupções que nenhum governo democrático consegue prever ou conter.
A transição energética não é uma pauta ambiental disfarçada de política econômica. Ela é, cada vez mais, uma questão de segurança nacional. Beatrice Petrovich, analista sênior da organização Ember e principal autora do relatório European Electricity Review 2026, foi direta ao avaliar o avanço das renováveis na União Europeia: “O perigo de depender de combustíveis fósseis é iminente em um cenário geopolítico instável.” E acrescentou que a importância desse avanço “vai além do setor de energia.”
Em 2025, pela primeira vez na história, a geração de eletricidade por fontes eólica e solar na União Europeia superou a produção a partir de combustíveis fósseis. Turbinas e painéis fotovoltaicos responderam por 30% da eletricidade gerada no bloco, enquanto termelétricas a carvão, gás e outros fósseis ficaram em 29%. A energia solar, sozinha, foi responsável por 13% da geração elétrica europeia, crescendo mais de 20% pelo quarto ano consecutivo, superando tanto o carvão quanto a hidroeletricidade.
O Brasil como protagonista possível
Se a Europa chegou a esse marco a partir de uma matriz historicamente dependente de carvão e gás, o Brasil parte de uma posição ainda mais favorável. O país já tem 50% de sua energia disponível proveniente de fontes renováveis, um percentual que coloca o Brasil em posição de destaque global, muito à frente das grandes economias da América do Norte, Europa e Japão, onde o uso de combustíveis fósseis ainda domina a matriz.
Segundo o professor Rômulo Menezes, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), essa vantagem estrutural é real e estratégica: “A gente tem um percentual alto de geração de energia a partir de biomassa, de energia solar, de eólica e de hidrelétrica. Tudo isso coloca o Brasil em uma posição de bastante destaque mundialmente.”
Entre as renováveis que mais se destacam na matriz brasileira estão a biomassa da cana (16,7%), a energia hidráulica (11,6%) e a lenha e o carvão vegetal (8,5%), segundo o Balanço Energético Nacional 2025, divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
A armadilha que ainda persiste
Apesar do avanço, há riscos reais de recaída. A Europa aprendeu isso da forma mais dura: ao reduzir a dependência do gás russo após a guerra na Ucrânia, o bloco aumentou as importações de gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos, trocando uma dependência por outra. A organização Ember alertou que essa nova concentração em um único fornecedor ameaça a segurança energética do bloco e enfraquece seu poder de negociação em contextos geopolíticos.
O professor Menezes sintetiza bem o dilema central que orienta toda essa discussão: “Toda forma de energia tem seus impactos, mas a humanidade precisa de energia, isso é indiscutível.
No momento em que a humanidade escolhe ter energia, escolhe causar impactos ao meio ambiente.” A questão, portanto, não é se haverá impacto, mas qual impacto a humanidade está disposta a aceitar, e por quanto tempo ainda vai adiar a escolha pelas formas menos destruidoras de obtê-lo.
Cada conflito no Oriente Médio é, entre outras coisas, um argumento a favor da transição energética. Não porque o petróleo vá acabar amanhã, mas porque a dependência dele já mostrou, repetidas vezes, que seu custo real vai muito além do preço por barril.
O mundo que queremos
Ao longo deste artigo, percorremos um caminho que começou no preço da gasolina e terminou na arquitetura do poder global. Vimos que o petróleo é um eixo em torno do qual giram guerras, alianças, desigualdades, crises climáticas e decisões que afetam a vida de bilhões de pessoas que jamais sentaram à mesa onde essas decisões são tomadas.
O conflito no Oriente Médio é a expressão de um modelo energético que concentra poder, riqueza e risco de forma assimétrica. Países exportadores colhem lucros extraordinários quando o barril dispara. Países importadores pobres pagam uma espécie de imposto involuntário sobre toda a sua economia. Populações civis pagam com a vida, o lar e o futuro.
A transição energética começa em decisões coletivas, políticas públicas, investimentos em infraestrutura, regulação, metas de emissão, mas também se manifesta em escolhas individuais e empresariais.
Reduzir o consumo de energia, priorizar transporte público, pressionar empresas e governos por transparência em suas matrizes energéticas, apoiar iniciativas locais de geração renovável: esses gestos, isolados, são insuficientes. Somados, constroem uma cultura que torna as mudanças estruturais politicamente possíveis.
Como observou o professor Rômulo Menezes, da UFPE, “toda forma de energia tem seus impactos, mas a humanidade precisa de energia, isso é indiscutível.” A questão não é se vamos usar energia, mas qual energia vamos escolher usar, e quem vai pagar o preço das escolhas que fizermos ou deixarmos de fazer.
Petróleo, poder e guerra: por que isso diz respeito a você
Este artigo começou com uma pergunta implícita: o que um conflito no Oriente Médio tem a ver com a vida de uma pessoa no Brasil?
A resposta, ao fim desta leitura, deveria estar clara: tudo. O preço do combustível, o custo dos alimentos, a taxa de juros, o aquecimento do planeta, as guerras que deslocam milhões de pessoas, as alianças que determinam quem recebe armas e quem recebe sanções, tudo isso está conectado por um fio que passa pelo Estreito de Ormuz e termina no barril de petróleo.
Compreender esse fio não é um exercício acadêmico. É uma condição para exercer cidadania em um mundo onde as decisões mais importantes raramente são explicadas com honestidade, e onde a desinformação sobre energia, geopolítica e clima é, ela mesma, um instrumento de poder.
O mundo que queremos: mais justo, mais estável, menos dependente da destruição virá de escolhas políticas, tecnológicas e culturais que ainda estamos construindo. E quanto mais cedo entendermos o que está em jogo, mais cedo poderemos participar dessas escolhas de forma consciente.