
Por que estamos falando de terras raras agora?
As terras raras entraram de vez no centro das disputas globais. O que antes parecia restrito à geologia, à indústria e aos relatórios técnicos passou a ocupar reuniões diplomáticas, estratégias de segurança econômica e acordos internacionais.
Em maio de 2026, representantes do Congresso dos Estados Unidos foram recebidos pelo Ministério de Minas e Energia do Brasil para discutir possibilidades de cooperação em “minerais críticos e estratégicos”. Segundo o MME, o encontro teve como objetivo fortalecer o diálogo bilateral e ampliar oportunidades de cooperação em temas ligados ao setor mineral e à transição energética.
A reunião deixou explícito algo que já vinha sendo desenhado nos bastidores: terras raras deixaram de ser apenas um assunto técnico. Elas passaram a integrar a agenda de segurança, comércio, energia e política externa.
Nesse contexto, o Brasil aparece como um país estratégico. Não apenas por seu potencial mineral, mas também por sua posição geopolítica em uma disputa global marcada pela tentativa de diversificar fornecedores e reduzir dependências concentradas em poucos países. A Reuters, em reportagem publicada pela Forbes Brasil, apontou que um acordo amplo entre Brasil e Estados Unidos sobre minerais críticos ainda enfrentava obstáculos em maio de 2026, incluindo questões internas e regulatórias.
Quando um mineral vira pauta de diplomacia entre potências, estamos falando de soberania sobre territórios, de futuro tecnológico e de quem decide os rumos da transição energética.
Por isso, a pergunta central não deve ser apenas “quanto o Brasil tem de terras raras?”. A questão mais importante é: em quais condições esses recursos serão explorados?
Com transparência? Com proteção ambiental? Com participação das comunidades? Com geração de valor local? Com respeito aos direitos humanos?
As terras raras podem ser importantes para tecnologias de baixo carbono. Mas nenhuma transição será justa se for construída sobre riscos ambientais, desigualdades territoriais e apagamento das populações afetadas pela mineração.
O que são terras raras?
Terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos usados em tecnologias estratégicas. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, esse grupo inclui o, o ítrio e os elementos conhecidos como lantanídeos.
Apesar do nome, elas nem sempre são “raras” em termos absolutos. O desafio está em encontrá-las em concentrações que permitam extração econômica e, principalmente, processá-las de forma segura, competitiva e com menor impacto socioambiental.
Elas receberam esse nome historicamente porque costumavam aparecer em minerais pouco concentrados e eram difíceis de separar e refinar. Ou seja: não basta encontrar terras raras no solo. É preciso extraí-las, separá-las, purificá-las e transformá-las em materiais capazes de abastecer cadeias industriais de alta tecnologia.
É justamente nesse caminho, entre a extração mineral e o produto final, que está uma das maiores disputas econômicas e tecnológicas do mundo.
No dia a dia, as terras raras aparecem em aplicações muito mais presentes do que imaginamos: ímãs de alto desempenho usados em turbinas eólicas, motores de veículos elétricos e alto-falantes; componentes para baterias, cerâmicas e vidros; ligas metálicas usadas em eletrônicos; além de equipamentos de defesa, satélites e sistemas de alta precisão.
Essa informação ajuda a entender por que esses elementos se tornaram tão disputados. Os ímãs produzidos com terras raras são fundamentais para tecnologias associadas à transição energética, como motores de carros elétricos e geradores de turbinas eólicas. Em outras palavras: falar de terras raras também é falar sobre quem controla as cadeias produtivas da energia, da mobilidade e da inovação.
Mas existe uma diferença importante entre ter o minério e dominar a tecnologia.
Um país pode possuir reservas minerais e, ainda assim, depender de outros para processar, refinar e transformar esses recursos em produtos de alto valor. Quando isso acontece, ele corre o risco de ocupar apenas a etapa mais impactante da cadeia: a extração. Enquanto outros países concentram as fases mais lucrativas, tecnológicas e estratégicas.
Por isso, o debate sobre terras raras não pode ser reduzido à oportunidade econômica. Ele precisa incluir soberania, política industrial, ciência, transparência e responsabilidade socioambiental.
Afinal, a tecnologia do futuro não pode nascer de práticas que colocam comunidades, territórios e ecossistemas em risco.
Por que elas são consideradas minerais críticos?
Nem todo mineral importante é, necessariamente, um mineral crítico. A diferença está no risco.
Um mineral passa a ser considerado crítico quando sua falta pode comprometer setores essenciais para um país ou uma região, como energia, tecnologia, indústria, infraestrutura, defesa e segurança econômica. Ou seja: ele não é “crítico” apenas porque tem valor comercial, mas porque sua ausência pode gerar impactos em cadeias produtivas inteiras.
A Comissão Europeia define matérias-primas críticas como aquelas que combinam alta importância econômica com alto risco de abastecimento. Esse risco pode estar ligado à concentração da produção em poucos países, à dependência de importações, à baixa capacidade de substituição ou à dificuldade de reciclagem.
É por isso que as terras raras entram nesse debate. A Agência Internacional de Energia acompanha minerais como cobre, lítio, níquel, cobalto, grafite e terras raras justamente porque eles são fundamentais para tecnologias de energia limpa.
A demanda por esses minerais vem crescendo com a expansão dos veículos elétricos, das baterias, das energias renováveis e das redes de transmissão. Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2024 a demanda por lítio cresceu quase 30%, enquanto a demanda por níquel, cobalto, grafite e terras raras aumentou entre 6% e 8%, impulsionada principalmente por aplicações ligadas à energia.
Mas o problema não está apenas na quantidade demandada. Está também em quem controla a cadeia.
Esse é um dos principais motivos para que as terras raras tenham ganhado tanta relevância geopolítica. Quando poucos países concentram a extração, o processamento ou a exportação de determinados minerais, qualquer restrição comercial, conflito diplomático ou mudança de política externa pode afetar cadeias inteiras de produção.
A União Europeia, por exemplo, afirma que busca reduzir a dependência de fornecedores únicos e fortalecer cadeias mais seguras e sustentáveis de matérias-primas críticas. O bloco também destaca que sua dependência de importações, somada ao aumento da demanda global pela transição digital e verde, torna essas cadeias mais vulneráveis.
Em outras palavras: as terras raras são críticas para quem precisa garantir acesso a elas. Mas são estratégicas para quem precisa decidir como, onde e em benefício de quem elas serão exploradas.
Essa é a questão central para o Brasil. O país pode ser visto como fornecedor em uma nova corrida global por minerais, mas também pode escolher outro caminho: desenvolver conhecimento, fortalecer sua capacidade tecnológica, exigir responsabilidade ambiental e garantir que os territórios impactados não sejam tratados apenas como zonas de extração.
A transição energética precisa de minerais. Mas também precisa de justiça, transparência e participação social. Sem isso, o risco é substituir uma dependência por outra e chamar de futuro um modelo que repete problemas antigos.
O papel da China na cadeia global
Para entender por que as terras raras se tornaram uma prioridade para os Estados Unidos, e por que o Brasil passou a aparecer como possível parceiro estratégico, é preciso olhar para a posição da China nessa cadeia.
A China não ocupa um papel central apenas porque possui grandes reservas ou porque extrai volumes expressivos desses elementos. Seu poder está, sobretudo, no domínio das etapas que vêm depois da mineração: separação, processamento, refino e fabricação de componentes de alto valor.
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, a produção chinesa de terras raras foi estimada em 270 mil toneladas em 2025, de um total mundial de 390 mil toneladas. O mesmo relatório estima que a China possuía 44 milhões de toneladas em reservas, dentro de um total mundial superior a 75 milhões de toneladas. Esses números mostram uma concentração relevante, mas ainda não revelam o ponto mais sensível da disputa: o processamento.
Sem separação, purificação e refino, as terras raras não chegam às cadeias tecnológicas em sua forma mais valiosa. Por isso, controlar o processamento significa controlar uma parte decisiva da transição energética, da inovação industrial e da segurança tecnológica.
O Center for Strategic and International Studies aponta que a China responde por cerca de 70% da mineração global de terras raras, 90% da separação e processamento e 93% da fabricação de ímãs. Essa concentração dá ao país uma influência que vai além do comércio: ela se converte em poder geopolítico.
Para os Estados Unidos, o problema não é apenas comprar terras raras. O desafio é depender de uma cadeia cuja etapa mais sensível está concentrada em um competidor estratégico. Quando o fornecimento pode ser afetado por decisões regulatórias, disputas comerciais ou restrições de exportação, setores inteiros ficam expostos: energia, indústria, tecnologia, defesa e infraestrutura.
Essa vulnerabilidade ficou mais evidente em 2025. O USGS registrou que a China endureceu controles de exportação sobre elementos como samário, gadolínio, térbio, disprósio, lutécio, escândio e ítrio em abril daquele ano. Em outubro, novas restrições foram anunciadas para outros elementos, embora parte dessas medidas tenha sido suspensa por um ano em novembro.
Reportagens da Reuters também apontaram que a China passou a exigir licenças para exportações e ampliou restrições sobre materiais, equipamentos e tecnologias ligados à mineração, ao refino e ao uso industrial de terras raras. A agência destacou que o país produz mais de 90% das terras raras processadas e dos ímãs de terras raras do mundo, o que torna qualquer mudança regulatória chinesa um fator de pressão sobre cadeias produtivas globais.
Na prática, esses controles funcionam como um alerta para governos e empresas. Se uma única potência concentra grande parte da capacidade de processar e transformar esses minerais, a busca por fornecedores alternativos se torna urgente. Mas há um ponto importante: abrir novas minas não resolve, sozinho, o problema.
A dependência global não está apenas no subsolo. Está nas fábricas, nos laboratórios, na tecnologia de separação, na capacidade de refino, nos investimentos industriais e na formação de mão de obra especializada. Sem isso, países com reservas minerais podem continuar presos à posição de exportadores de matéria-prima, enquanto outros concentram as etapas mais lucrativas e estratégicas da cadeia.
É nesse cenário que países como o Brasil entram no radar.
O Brasil tem potencial geológico e reservas relevantes, mas isso não basta para garantir protagonismo. Se o país apenas exportar concentrados de baixo valor e importar tecnologia, refino e produtos finais mais caros, pode acabar repetindo um padrão conhecido: assumir os impactos da mineração e ficar com uma parcela limitada dos benefícios econômicos e tecnológicos.
A disputa global pelas terras raras, portanto, não aumenta apenas o interesse externo sobre o território brasileiro. Ela também expõe uma decisão estratégica: o Brasil quer ser apenas fornecedor de minério ou quer construir uma cadeia industrial mais soberana, com pesquisa, tecnologia, agregação de valor e responsabilidade socioambiental?
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o Brasil produziu cerca de 2 mil toneladas de óxidos de terras raras em 2025 e tinha reservas estimadas em 11 milhões de toneladas. No mesmo ano, a China produziu 270 mil toneladas e possuía reservas estimadas em 44 milhões de toneladas.
Essa diferença ajuda a explicar por que o interesse internacional cresceu. Em um cenário de disputa por fornecedores alternativos à China, países com potencial mineral passam a ser observados com mais atenção. O Brasil, nesse contexto, surge como uma possível peça estratégica para diversificar o abastecimento global de terras raras.
O próprio debate sobre reservas exige cuidado. Enquanto o USGS estima 11 milhões de toneladas em reservas brasileiras, análises nacionais citadas pelo CETEM apontam o Brasil como detentor de cerca de 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras. Essa diferença pode estar relacionada a critérios distintos de classificação, atualização de bases e formas de separar “reserva” e “recurso”. De todo modo, o ponto central permanece: ter ocorrência mineral não significa, automaticamente, ter capacidade produtiva, tecnológica e industrial.
A relação entre EUA e Brasil
A relação entre Brasil e Estados Unidos em minerais críticos está sendo desenhada como uma parceria de interesse mútuo, mas ainda longe de um consenso estável. Para Washington, o objetivo é reduzir a dependência da China, diversificar fornecedores e garantir acesso a insumos estratégicos para energia, indústria e defesa; para Brasília, a aposta ideal passa por investimento, transferência de tecnologia, processamento em território nacional e maior captura de valor na cadeia produtiva.
Essa assimetria explica por que a conversa é ao mesmo tempo promissora e delicada. Em 2020, Brasil e EUA já haviam criado um grupo de trabalho bilateral para minerais estratégicos com a promessa de fortalecer a segurança do abastecimento, estimular inovação e promover cadeias economicamente viáveis. Em 2026, porém, a negociação ainda era tratada como aberta e incompleta, com relatos de que os EUA sinalizavam apoio inclusive a etapas de refino e industrialização no Brasil, enquanto o governo brasileiro insistia em não repetir um modelo puramente extrativista.
O ponto central é a soberania mineral. Quando um país com grandes reservas entra no radar de potências industriais, o risco não é apenas a exportação de minério, mas a captura da etapa mais lucrativa da cadeia por atores externos.
É por isso que o governo brasileiro tem evitado aderir a arranjos que pareçam obrigá-lo a escolher um lado na disputa geopolítica, preferindo negociar com múltiplos parceiros e preservar margem de decisão sobre o próprio território e seus recursos. Na prática, o Brasil quer evitar que um acordo comercial vire um atalho para fornecer matéria-prima barata enquanto importa tecnologia cara e perde autonomia sobre como, onde e para quem seus minerais serão usados.
Essa tensão ficou visível nas reportagens publicadas em 2026: de um lado, os EUA aparecem buscando acordos e garantias de fornecimento; de outro, o Brasil sinaliza que qualquer entendimento precisa incluir processamento local, marco regulatório mais claro e benefícios concretos para a economia nacional. A Reuters, em matéria reproduzida pela Forbes Brasil, afirmou que um acordo amplo ainda estava distante em maio de 2026, justamente porque faltava um marco legal específico para minerais críticos e terras raras no país.
A América Latina conhece bem que disputas por recursos estratégicos raramente são neutras. Quando se trata de petróleo na Venezuela, por exemplo, a política externa dos Estados Unidos envolveu sanções econômicas, isolamento diplomático e tentativa de influenciar diretamente os rumos internos do país.
O que se percebe é que a busca por minerais críticos pode vir acompanhada de pressões explícitas ou implícitas sobre decisões nacionais. O Brasil, ao entrar nesse tabuleiro das terras raras, precisa olhar para esse histórico e proteger sua margem de decisão, evitando que acordos comerciais se transformem em mecanismos de condicionamento político.
Nesse cenário, a questão central não é apenas se haverá acordo com os EUA, mas sob quais termos. Uma política externa agressiva em defesa de cadeias estratégicas pode transformar “parceria” em dependência, se o Brasil não garantir cláusulas claras de processamento local, transferência de tecnologia, proteção socioambiental e respeito à sua própria agenda de desenvolvimento. O debate sobre soberania mineral é justamente isso: definir até onde o país aceita alinhar seus interesses aos de uma potência e onde traça limites.
Impacto socioambiental
Esse é o ponto que impede uma leitura ingênua sobre terras raras: mineração não é sinônimo de desenvolvimento automático, e muito menos de “energia limpa” por definição. O Brasil já conhece os custos de cadeias extrativas mal reguladas, por isso a discussão precisa começar perguntando não apenas quem vai explorar esses minerais, mas como, onde e sob quais garantias sociais e ambientais isso será feito.
A mineração é uma atividade de alto impacto territorial porque altera solo, paisagem, cursos d’água e modos de vida no entorno dos empreendimentos. No caso das terras raras, esse risco pode ser ampliado pela necessidade de etapas químicas complexas de separação e beneficiamento, que consomem água, energia e insumos potencialmente contaminantes. Em outros termos, a extração não termina na cava: ela continua no processamento, na gestão dos rejeitos e no controle permanente da poluição.
Os riscos ambientais e sociais ficam ainda mais sensíveis quando se fala em rejeitos, barragens e fiscalização. A Agência Nacional de Mineração informa que as barragens de mineração no país estão sujeitas à Política Nacional de Segurança de Barragens e devem ser cadastradas, classificadas e fiscalizadas conforme o dano potencial associado, o que mostra que a segurança não pode ser tratada como detalhe operacional.
Em relatórios recentes, a própria ANM registra ações de inspeção e acompanhamento, mas o histórico brasileiro prova que fiscalização formal não basta se houver fragilidade institucional, omissão de estudos ou flexibilização de exigências.
A memória de Brumadinho é indispensável aqui porque lembra que desastres não nascem só de um rompimento: eles começam antes, na normalização do risco, na pressa por licenciar, na confiança excessiva em relatórios pouco transparentes e na negligência com vidas e territórios.
Por isso, qualquer projeto ligado a terras raras precisa de consulta real às comunidades atingidas, monitoramento independente e transparência sobre barragens, rejeitos, uso da água, áreas de extração e planos de emergência.
A transição energética só será realmente transformadora se vier acompanhada de justiça social e ambiental.
O problema é que a pressa por minerais “da transição” pode repetir velhas desigualdades quando a cadeia produtiva é organizada sem participação social, sem controle rigoroso e sem proteção dos territórios afetados. Em vez de substituir uma crise por outra, a chamada economia verde pode apenas deslocar o custo ambiental e humano para comunidades que já convivem com pressão sobre água, solo, renda e modos de vida.
Por isso, falar em energia limpa exige fazer a pergunta certa: é possível construir a transição energética sobre territórios contaminados, comunidades desprotegidas e decisões tomadas sem consulta? A resposta que essa discussão impõe é simples e dura: uma transição só é justa quando também protege direitos humanos, garante controle público e distribui de forma mais equilibrada os custos e os benefícios da mudança.
O que uma política séria precisa garantir
Uma política responsável para terras raras precisa começar pelo básico: não tratar a mineração como urgência acima de qualquer regra. Isso significa licenciamento ambiental rigoroso, transparência sobre dados de produção e risco, rastreabilidade da cadeia e participação efetiva das comunidades afetadas antes, durante e depois da operação.
No Brasil, a discussão não pode repetir o erro de acelerar projetos sem compreender seus impactos territoriais. A experiência recente mostra que consulta pública e controle social não são obstáculos ao desenvolvimento, mas condições para que ele seja legítimo, especialmente em áreas com povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais que podem ser diretamente afetadas por mudanças no uso do solo, na água e na dinâmica local. Quando o planejamento ignora esses grupos, o custo social da mineração acaba sendo transferido para quem menos se beneficia dela.
Outro ponto indispensável é a segurança. Planos de emergência, monitoramento contínuo, fiscalização independente e regras claras para barragens, rejeitos e áreas de extração precisam ser parte da política desde o início, e não aparecer só depois do problema. O histórico da mineração no país mostra que flexibilizar etapas de controle em nome da pressa pode sair caro demais para o meio ambiente, para as comunidades e para a própria credibilidade do setor.
Também é preciso pensar na cadeia como um todo, e não apenas na lavra. Investimento em pesquisa, processamento limpo, reaproveitamento de rejeitos e economia circular são caminhos para reduzir impactos e aumentar o valor agregado no país. A reciclagem de ímãs e de componentes eletrônicos, por exemplo, ajuda a diminuir a pressão por nova extração e cria alternativas mais inteligentes para um setor que tende a crescer.
Por fim, uma política séria para terras raras deve gerar benefícios concretos para os territórios impactados: empregos qualificados, infraestrutura, compensações justas, fiscalização acessível e mecanismos de controle social que permitam acompanhar quem ganha, quem perde e quem assume os riscos. Sem isso, a promessa de soberania mineral pode virar apenas uma nova versão do velho extrativismo, agora reembalada como transição energética.
Conclusão
As terras raras colocam o Brasil no centro de uma disputa que é, ao mesmo tempo, econômica, tecnológica e política. O país tem reservas relevantes e pode ganhar importância na nova geopolítica dos minerais, mas isso não significa aceitar qualquer modelo de exploração em nome da pressa climática ou do interesse externo.
O que está em jogo é que tipo de desenvolvimento o Brasil quer construir. Se a transição energética servir para repetir velhas lógicas de extração, concentração de riqueza e dano aos territórios, ela deixará de ser solução para virar mais um problema.
As terras raras podem estar no centro da tecnologia do futuro. Mas o futuro que queremos não pode ser construído à custa da destruição ambiental, da insegurança das comunidades e da perda de soberania. Falar sobre terras raras é falar sobre escolhas: que tipo de desenvolvimento o Brasil quer?