A COP30, a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC), é um dos maiores e mais relevantes encontros globais para o debate sobre a mudança do clima. 

Realizada anualmente, a COP reúne líderes mundiais, cientistas, representantes da sociedade civil e organizações não governamentais, todos comprometidos em encontrar soluções para um dos maiores desafios enfrentados pela humanidade: as mudanças climáticas. 

Com a realização em Belém, no Brasil, em 2025, a COP30 tem sido um palco central de discussões sobre o futuro ambiental do planeta.

Criada pela UNFCCC, a COP tem como missão implementar os compromissos globais assumidos pelos países para combater o aquecimento global. A Convenção, que entrou em vigor após a Rio-92, estabeleceu um regime multilateral que orienta os esforços dos países em direção à redução das emissões de gases de efeito estufa, com uma divisão de responsabilidades entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. 

Em sua essência, a COP busca avançar em cinco pilares fundamentais: mitigação das emissões, adaptação às mudanças climáticas, financiamento de ações ambientais, transferência de tecnologia e capacitação.

Além das negociações climáticas, a COP30 se configura como um espaço fundamental para discutir temas transversais como justiça climática, direitos dos povos indígenas, mulheres, jovens e a transição justa para economias sustentáveis. 

O Acordo de Paris, firmado na COP21 em 2015, reforçou a importância dessa cooperação global, estabelecendo a meta de limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC. 

Em Belém, mais uma vez, o Brasil e outros países enfrentaram a responsabilidade de avançar nas metas de redução de emissões, adaptar-se aos efeitos do clima e garantir o financiamento necessário para as transformações que o planeta exige.

Esta edição, no entanto, chegou com um tom de urgência. Como destacou a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, estamos “30 anos atrasados e agora temos pressa”. A COP30 não é apenas uma reunião sobre ciência e política, mas um espaço de ação urgente para todos os setores da sociedade.

 É um momento decisivo para reafirmarmos o nosso compromisso com o futuro do planeta, especialmente nas questões que tocam diretamente o Brasil: a preservação da Amazônia, a proteção dos povos indígenas e a promoção de uma economia que respeite os limites do meio ambiente.

Nosso olhar se volta agora para os avanços, as tensões e os desafios que foram discutidos em Belém, pois, como cidadãos e como sociedade, precisamos compreender o papel que podemos desempenhar no fortalecimento de um futuro mais justo e sustentável. 

A COP30 nos desafia a agir com rapidez, mas também com justiça, respeitando os direitos humanos, sociais e ambientais. E é nesse contexto que o Instituto Camila e Luiz Taliberti (ICLT) se insere, buscando preservar a memória da tragédia de Brumadinho e, ao mesmo tempo, contribuir para a construção de um futuro mais equitativo e sustentável.

Relevância da COP30 para o Brasil (Belém/PA)

A COP30, aconteceu em Belém, no coração da Amazônia, sem dúvida, isso é um marco significativo não só para o Brasil, mas para o mundo. Pela primeira vez, o Brasil foi o anfitrião da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, um evento fundamental para o futuro do planeta. 

A escolha da Amazônia como sede da COP30 reforça a importância global do Brasil no debate sobre a preservação ambiental, o desenvolvimento sustentável e a proteção dos povos indígenas.

Para o Brasil, sediar a COP30 não é apenas um evento diplomático, é uma chance de impulsionar o país rumo a um novo modelo de desenvolvimento. 

A crise climática é uma das maiores ameaças que o país enfrenta, mas, ao mesmo tempo, oferece oportunidades que não podem ser ignoradas. A transição para uma economia de baixo carbono, por exemplo, pode posicionar o Brasil como líder no setor de energias renováveis, na preservação das florestas e no uso sustentável dos recursos naturais.

Com a Amazônia no centro das discussões, o Brasil tem a chance de destacar o papel das florestas tropicais na mitigação dos efeitos da mudança climática. Além de seu valor ecológico inestimável, as florestas brasileiras são essenciais para a regulação do clima global.

 A proteção da Amazônia, portanto, não é apenas uma questão ambiental, mas também econômica e geopolítica. A preservação da floresta e a promoção da bioeconomia podem gerar oportunidades significativas para o país, ao mesmo tempo em que contribuem para a redução das emissões de gases de efeito estufa e para o fortalecimento da resiliência climática das comunidades locais.

A COP30 também trouxe consigo um desafio pontual: garantir financiamento climático suficiente para os países em desenvolvimento. 

Embora as nações mais ricas tenham, historicamente, sido as maiores responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa, o Brasil, como parte do bloco emergente, tem a responsabilidade de contribuir com soluções sustentáveis. 

A questão do financiamento foi central em Belém, com a meta de arrecadar US$ 1,3 trilhão para apoiar as ações de mitigação e adaptação dos países em desenvolvimento. 

Para o Brasil, isso representa uma oportunidade de atrair investimentos e recursos financeiros necessários para implementar políticas públicas voltadas para a sustentabilidade e o combate à crise climática.

Em meio a um cenário de resistência global à questão do financiamento, a COP30 oferece ao Brasil uma plataforma para dialogar sobre soluções viáveis, que integrem o setor privado, a sociedade civil e o governo em um esforço colaborativo.

 A transição energética, por exemplo, foi uma das grandes bandeiras do país, com o fortalecimento das energias renováveis e a redução da dependência de combustíveis fósseis, um movimento que também pode impulsionar o desenvolvimento econômico e social, principalmente na Amazônia e em outras regiões com grande potencial para projetos sustentáveis.

Para além da diplomacia, a COP30 tem o poder de catalisar uma nova agenda de negócios no Brasil. A implementação de soluções climáticas, a adaptação às mudanças já em curso e o compromisso com a redução das emissões podem gerar novas oportunidades de emprego, renda e inovação, especialmente nos setores de energia renovável, agricultura sustentável e preservação ambiental.

O Brasil pode se tornar um exemplo de como a economia de baixo carbono pode gerar crescimento econômico, redução das desigualdades e melhora na qualidade de vida das populações mais vulneráveis.

Principais temas debatidos na COP30

A COP30 em Belém foi marcada por debates intensos e decisões que revelam tanto avanços importantes quanto limites preocupantes na resposta global à crise climática. No centro das discussões estão temas que afetam diretamente o futuro do planeta.

O impasse central da COP30: futuro sem fósseis ainda distante

Um dos temas mais sensíveis da COP30 foi a proposta dos “mapas do caminho”, roteiros globais para eliminar o desmatamento e reduzir a dependência de combustíveis fósseis

A iniciativa, defendida pelo presidente Lula, pretendia firmar no documento final um compromisso coletivo rumo a uma transição energética justa e ordenada.

Apesar do apoio de mais de 80 países, a proposta enfrentou forte resistência de grandes produtores e consumidores de petróleo, como Arábia Saudita, Índia e China. A pressão foi tão grande que negociadores desses países ameaçaram bloquear todo o restante das discussões caso o tema fosse mantido nos textos oficiais.

O resultado:
Nenhuma menção aos combustíveis fósseis ou aos mapas do caminho entrou nos documentos finais da COP30.

Mesmo assim, a presidência brasileira da COP, que segue até o fim de 2026,  anunciou que irá elaborar ambos os mapas por conta própria e apresentá-los aos países na COP31, na Turquia. É um passo simbólico, mas importante, para manter o debate vivo diante de uma crise climática que avança rapidamente.

Organizações da sociedade civil, no entanto, lamentaram o recuo. Para ambientalistas, foi uma “oportunidade perdida” em um momento em que o mundo precisa acelerar, e não travar, a transição energética.

Financiamento climático para adaptação

Outro tema central da COP30 foi a ampliação do financiamento para adaptação, ações que ajudam países em desenvolvimento a lidar com enchentes, secas, queimadas e outros impactos extremos da crise climática.

O acordo firmado determina que os países desenvolvidos deverão triplicar o financiamento anual, chegando a até US$ 120 bilhões por ano, mas só a partir de 2035.

O aumento foi comemorado, mas o prazo decepcionou. A crise climática já se intensifica hoje, eventos extremos têm se tornado mais frequentes e comunidades vulnerabilizadas precisam de apoio imediato.

Especialistas lembram que adiar recursos essenciais significa colocar vidas em risco, especialmente em países que já sentem com força os impactos do clima.

Inclusão de afrodescendentes no texto final

Pela primeira vez, o documento principal da COP incluiu o termo “afrodescendentes”, reconhecendo oficialmente o papel dessas populações na resposta à crise climática.

Esse reconhecimento é fundamental para países como o Brasil, onde:

  • Comunidades quilombolas protegem ecossistemas essenciais;
  • Desigualdades históricas agravam a vulnerabilidade climática;
  • O racismo ambiental segue excluindo populações negras das decisões.

Indicadores globais de adaptação

Outro avanço relevante foi a criação de um conjunto de 59 indicadores para medir como os países estão se adaptando à mudança do clima, um passo importante para acompanhar, com clareza e transparência, o que está sendo feito ao redor do mundo.

Essa pauta enfrentou resistências:

  • Países africanos temiam que os indicadores fossem usados como condição para liberar recursos;
  • Países desenvolvidos resistiam à inclusão de métricas sobre o volume de financiamento que deveriam prover.

Apesar das tensões, o acordo foi firmado e marca um passo importante: pela primeira vez, a adaptação passa a ser medida não só por toneladas de carbono evitadas, mas por vidas protegidas, infraestrutura resiliente e ações concretas.

Ainda assim, organizações destacam que a lista poderia ser mais robusta e mensurável e que o debate deve seguir até a COP32, quando os indicadores serão revisados.

 Agricultura, segurança alimentar e a transição para sistemas sustentáveis

A COP30 também dedicou parte importante de sua agenda para discutir o papel da agricultura no enfrentamento da crise climática, especialmente em um cenário global marcado por extremos climáticos, perda de produtividade e insegurança alimentar crescente.

No décimo dia da conferência, especialistas, lideranças femininas, produtores e organizações debateram caminhos para reduzir emissões do setor agrícola, fortalecer a resiliência de pequenos produtores e adaptar sistemas alimentares aos novos desafios climáticos.

Alguns pontos-chave desse debate:

  • Fortalecimento da agricultura sustentável: práticas como agroflorestas, manejo regenerativo do solo e redução do uso de insumos químicos têm ganhado destaque como soluções viáveis e escaláveis.
  • Pecuária de baixo carbono: produtores do Pará apresentaram iniciativas de pecuária sustentável, mostrando que é possível produzir sem ampliar o desmatamento.
  • Mulheres como protagonistas: a discussão destacou a importância da liderança feminina no campo, reconhecendo que mulheres agricultoras estão na linha de frente da adaptação climática.
  • Segurança alimentar: eventos extremos já comprometem o acesso à comida em diversas regiões. Tornar sistemas alimentares mais resilientes é uma prioridade urgente.

Esse subtema reforça a conexão entre produção de alimentos, preservação ambiental e justiça climática, mostrando que discutir clima também é discutir o que chega ao nosso prato e quem consegue acessar esse alimento. Ele aproxima a COP30 da realidade de comunidades vulnerabilizadas, que são mais afetadas pela instabilidade climática e econômica.

Avanços recentes na agenda climática

Um dos anúncios mais significativos da COP30 e diretamente conectado à agenda de justiça climática e proteção de direitos humanos foi a decisão do governo federal de avançar na demarcação de 10 novas Terras Indígenas.

O anúncio, feito pela ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, marcou um momento simbólico dentro da conferência: a transformação de compromissos políticos em ações concretas de garantia territorial.

As portarias declaratórias, já encaminhadas pelo Ministério da Justiça, representam uma das etapas finais do processo de demarcação. Elas reconhecem oficialmente o território como indígena, delimitam seus limites físicos e preparam o caminho para a fase seguinte: a homologação. 

Uma vez homologadas, essas terras passam a ser de usufruto exclusivo dos povos que as habitam, fortalecendo sua autonomia e protegendo áreas essenciais para a preservação florestal.

As 10 terras declaradas abrangem uma diversidade de povos e biomas:

  1. TI Vista Alegre (AM – Mura)
  2. TI Tupinambá de Olivença (BA – Tupinambá)
  3. TI Comexatibá (BA – Pataxó)
  4. TI Ypoí Triunfo (MS – Guarani)
  5. TI Sawré Ba’pim (PA – Munduruku)
  6. TI Pankará da Serra do Arapuá (PE – Pankará)
  7. TI Sambaqui (PR – Guarani)
  8. TI Ka’aguy Hovy (SP – Guarani)
  9. TI Pakurity (SP – Guarani)
  10. TI Ka’aguy Mirim (SP – Guarani)

O anúncio se soma ao avanço já divulgado na semana anterior sobre as terras Munduruku, incluindo a TI Sawré Muybu, que está em fase de demarcação física, elevando para 11 o total de territórios com progressos concretos durante a COP30.

Além da lista de novos territórios, a ministra reforçou um compromisso nacional de grande escala: regularizar e proteger 63 milhões de hectares de terras indígenas e quilombolas até 2030

Desse total, 4 milhões de hectares correspondem a territórios quilombolas, e 59 milhões de hectares estarão distribuídos entre terras indígenas incorporadas ao Plano Integrado de Implementação da PNGATI (Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas).

O anúncio ocorreu durante um encontro de alto nível na conferência, reunindo chefes de Estado, filantropias globais e organizações internacionais dedicadas à proteção territorial. Nesse espaço, 15 países firmaram apoio à meta global de proteger 160 milhões de hectares destinados a povos indígenas, afrodescendentes e comunidades tradicionais.

Para lideranças indígenas presentes em Belém, o pacote representa uma resposta a uma luta histórica.

 Pesquisas mostram que territórios indígenas são as áreas mais protegidas contra o desmatamento e essenciais para conter o colapso climático.

 Assim, a demarcação não é apenas uma política de reconhecimento, é uma estratégia ambiental inteligente, alinhada ao compromisso do Brasil com a preservação da Amazônia e outros biomas.

O anúncio também ecoa diretamente nas ruas. Durante a COP30, milhares de indígenas participaram da Marcha Global pelo Clima e de manifestações pacíficas, reivindicando, entre outras pautas, o reconhecimento e a proteção plena de seus territórios.

 O pacote de portarias declaratórias surge, portanto, como uma resposta concreta às vozes que se fizeram ouvir dentro e fora dos corredores da conferência.

A marcha global indígena pelo clima

Entre tantos anúncios e negociações formais, um dos momentos mais marcantes da COP30 aconteceu fora das salas de conferência: a Marcha Global Indígena pelo Clima, que levou milhares de pessoas às ruas de Belém e se tornou o maior ato dos povos originários durante todo o evento.

A marcha, que saiu da Aldeia COP, espaço montado na Universidade Federal do Pará e que acolheu cerca de 3 mil indígenas ao longo da conferência, produziu uma mensagem central que guiou todo o protesto:

“Não existe justiça climática sem os povos indígenas e sem seus territórios.”

O ato reuniu lideranças de diversas etnias, jovens, representantes de comunidades tradicionais, filantropias e aliados da causa climática. 

Em cada faixa, canto e ritual, estava evidente o pedido por demarcação de terras, participação real nos processos de decisão e reconhecimento do papel dos povos indígenas.

Durante a marcha, vozes como a de Célia Alves, do povo Terena, reforçaram que a luta indígena também passa pela educação e pela presença em espaços acadêmicos. 

Já jovens como Davi Tupaiú, do Baixo Tapajós, denunciaram a invasão de territórios por garimpo, desmatamento e contaminação por mercúrio, realidades que mostram como a crise climática e a violência ambiental seguem afetando comunidades inteiras.

A caminhada, que durou mais de duas horas, foi marcada por símbolos poderosos, como o enorme boneco de cobra de 30 metros levado pelo povo Borari, representando proteção e resistência. A presença da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, reforçou a conexão entre as pautas das ruas e as discussões diplomáticas dentro da COP.

A mobilização também teve alcance continental. Povos como os Yukpa, da Venezuela, se despediram de Belém levando consigo a experiência de um movimento indígena articulado globalmente e lembrando que a luta por território e clima ultrapassa fronteiras.

A Marcha Global Indígena marcou profundamente a COP30 porque mostrou, de forma incontestável, que soluções climáticas verdadeiras só são possíveis quando as vozes indígenas são ouvidas, respeitadas e integradas às decisões. 

Incêndio na COP30

A COP30 em Belém, apesar de seu término no sábado (22), foi por um incidente: o incêndio que atingiu um dos pavilhões da Blue Zone, o espaço reservado para os estandes de países participantes da conferência.

 O fogo, que começou no pavilhão do African Development Bank Group (AfDB), rapidamente se espalhou por materiais dos estandes e atingiu o teto da estrutura.

O Centro Integrado de Operações Conjuntas da Saúde (CIOCS) informou que ao menos 35 pessoas receberam atendimento médico devido à inalação de fumaça e crises de ansiedade, relacionadas ao estresse causado pela evacuação de emergência. 

Embora o número tenha sido inicialmente reportado como 27, ele subiu após mais atendimentos serem realizados. Felizmente, não houve registros de queimaduras graves. Três pessoas continuam internadas para monitoramento após o incidente, com equipes de saúde municipal, estadual e federal acompanhando os casos.

Após o controle do incêndio, a Blue Zone foi reaberta poucas horas depois, ainda na noite de quinta-feira (20), após uma inspeção de segurança e a emissão de um atestado de segurança pelo Corpo de Bombeiros. Isso permitiu que as atividades na área fossem retomadas, embora com algumas restrições, como barreiras que impediram a circulação nos pavilhões afetados.

Apesar do susto, a rápida resposta das equipes de emergência e a gestão da segurança permitiram que o evento seguisse, embora com algumas interrupções no fluxo de pessoas, como visto na sexta-feira (21), quando o local ainda estava interditado para inspeção. 

A evacuação emergencial e as barreiras organizadas nas proximidades da área afetada também impediram um maior número de incidentes.

A Polícia Federal foi acionada para realizar perícias no local e apurar as causas do incêndio. De acordo com a PF, peritos chegaram a Belém na sexta-feira (21) para trabalhar no laudo técnico que determinará as circunstâncias do ocorrido. 

As primeiras informações indicam que o fogo teria se alastrado rapidamente devido ao material inflamável nos estandes, mas o espaço da Blue Zone, protegido por lonas antichamas, evitou que o incêndio causasse danos mais severos.

O ocorrido trouxe à tona a importância da gestão de segurança em eventos internacionais de grande porte como a COP30, que reúne 42 mil participantes de 195 países e atrai uma enorme concentração de pessoas e representações de nações e organizações. A resposta rápida das autoridades de segurança e saúde foi essencial para minimizar os impactos do incidente.

O Pacote de Belém

A COP30 marcou um momento importante na luta global contra a crise climática, com a aprovação do chamado “Pacote de Belém”

Esse pacote de decisões representa um esforço conjunto de 195 países para enfrentar as mudanças climáticas de maneira mais integrada e equitativa. 

Contudo, apesar de ser um avanço significativo, a ambição do pacote foi considerada limitada por muitas organizações e líderes da sociedade civil, que esperavam compromissos mais ousados em áreas essenciais como a redução de combustíveis fósseis e a eliminação do desmatamento.

Principais compromissos do Pacote de Belém

  1. Financiamento para adaptação climática
    Um dos compromissos mais importantes foi a triplicação do financiamento para adaptação, com o objetivo de alcançar US$ 120 bilhões anuais até 2035. Esse financiamento será destinado a ajudar países em desenvolvimento a se adaptarem aos impactos das mudanças climáticas, como desastres naturais mais frequentes e intensos. Embora seja um passo positivo, o compromisso só será efetivo em 2035, o que foi visto por alguns como um atraso, dado o agravamento da crise climática.
  2. Indicadores globais de adaptação
    A COP30 também aprovou um conjunto de 59 indicadores para monitorar o progresso da adaptação aos impactos climáticos. Estes indicadores, que cobrem áreas como água, alimentação, saúde, ecossistemas e infraestrutura, são uma tentativa de tornar as ações climáticas mais mensuráveis e conectadas à vida das pessoas. No entanto, muitos apontaram que a natureza voluntária desses indicadores limita a eficácia das ações de adaptação em nível global.
  3. Transição justa
    Um dos pontos de destaque foi a criação de um mecanismo de transição justa, que coloca a equidade no centro das soluções climáticas. Esse mecanismo visa garantir que os impactos sociais e econômicos da transição para uma economia de baixo carbono sejam mitigados, especialmente para trabalhadores de setores como carvão e petróleo. Embora a transição justa seja uma necessidade urgente, o pacote não incluiu um plano detalhado de como essa transição será financiada e implementada, o que foi uma decepção para muitos.
  4. Gênero e mudanças climáticas
    A inclusão de um Plano de Ação de Gênero foi outro avanço significativo, reconhecendo que as mulheres, especialmente as indígenas e as afrodescendentes, têm um papel fundamental nas soluções climáticas. O plano inclui compromissos para orçamentos e financiamentos com perspectiva de gênero, incentivando a liderança feminina nas comunidades rurais e indígenas.
  5. Acelerador de implementação
    Um novo Acelerador Global de Implementação foi lançado com o objetivo de apoiar países na implementação das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e dos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs). Juntamente com a Missão Belém para 1,5°C, essas iniciativas buscam aumentar a ambição de mitigação e adaptação e melhorar a cooperação internacional nos próximos anos.

Limitações do Pacote de Belém

Embora o Pacote de Belém tenha sido celebrado como um passo importante para conectar a agenda climática com as vidas das pessoas, muitas críticas surgiram quanto à falta de ambição

A transição energética, por exemplo, foi um tema central da conferência, mas não houve um acordo vinculante para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, o que foi um ponto de frustração para muitos ativistas e países que acreditam que o mundo precisa avançar mais rápido para alcançar as metas do Acordo de Paris.

Além disso, a questão do desmatamento global, embora tenha sido amplamente debatida, não resultou em metas firmes e compromissos claros para combater o desmatamento ilegal, especialmente na Amazônia. As resoluções sobre esses temas ficaram aquém das expectativas de muitos especialistas que apontam que a preservação das florestas tropicais é de extrema importância para mitigar os impactos climáticos.

Dois novos mapas de ação

Mesmo diante de um cenário internacional complexo, marcado por tensões geopolíticas e divergências profundas entre países produtores e consumidores de combustíveis fósseis, a presidência brasileira da COP30 tomou uma atitude estratégica para manter viva a ambição climática global.

 Ao final da conferência, o Brasil anunciou a elaboração de dois mapas de ação voluntários, que serão construídos ao longo de sua presidência (2025–2026) e apresentados na COP31.

Esses mapas representam uma tentativa de avançar em temas que não alcançaram consenso formal dentro das negociações, mas que são considerados essenciais para enfrentar a crise climática. Eles são:

  1. Roteiro para a transição para uma economia livre de combustíveis fósseis
    Um plano para orientar, de forma justa, ordenada e equitativa, a saída global da dependência de petróleo, gás e carvão, tema que dividiu profundamente os países durante a COP30.

Com mais de 80 países apoiando a inclusão de combustíveis fósseis no texto final e outros tantos se opondo totalmente, o Brasil entendeu que era necessário manter o tema vivo, criando um espaço político para continuar o diálogo e identificar caminhos possíveis para uma transição energética que respeite diferentes realidades socioeconômicas.

  1. Roteiro florestal e climático
    Uma iniciativa dedicada a reunir governos, cientistas, comunidades tradicionais e sociedade civil para construir estratégias de contenção e reversão do desmatamento, especialmente em florestas tropicais.
    O Brasil busca consolidar uma visão global que conecte conservação, desenvolvimento sustentável e justiça climática, reforçando a relação entre natureza, clima e povos da floresta, evidenciada pela realização da COP na Amazônia.

Por que os roteiros são importantes?

Ao assumir a iniciativa de construir esses roteiros de forma voluntária, colaborativa e internacional, o Brasil envia uma mensagem clara: mesmo sem consenso formal, há urgência e disposição para avançar.

Além disso, os mapas servirão para:

  • Orientar políticas nacionais e internacionais com base em ciência e justiça climática;
  • Conectar transição energética e proteção florestal às necessidades reais das populações;
  • Criar um ambiente político favorável para decisões mais ambiciosas na COP31 e COP32;
  • Apoiar países em desenvolvimento que enfrentam desafios similares.

A COP30, realizada em Belém entre 10 e 22 de novembro, terminou carregando ao mesmo tempo o peso das frustrações e a força das mobilizações populares. Embora o encontro tenha registrado avanços inéditos na participação social e na inclusão de temas historicamente invisibilizados, como racismo ambiental e justiça de gênero, o resultado final ficou aquém do necessário diante da urgência climática global.

Avanços insuficientes para a crise que enfrentamos

A expectativa de que Belém fosse a COP da ambição não se concretizou no texto final.
Dois temas centrais: eliminação dos combustíveis fósseis e enfrentamento ao desmatamento, ficaram completamente fora das decisões formais, mesmo após intensa pressão de países vulneráveis, especialistas e organizações da sociedade civil.

O financiamento climático, elemento determinante para que países do Sul Global possam se adaptar e fortalecer seus sistemas de proteção, também avançou menos do que o esperado. Sem responsabilizar diretamente os maiores emissores históricos nem estabelecer metas mais claras, o resultado final reforçou as desigualdades já existentes.

Para muitas organizações, o recado foi direto:
A ambição apresentada não corresponde ao tamanho da crise.

Participação social

Se nas mesas diplomáticas o ritmo foi lento, nas ruas a COP30 foi plural e histórica.

Pela primeira vez após quatro conferências marcadas por restrições sociais, a sociedade civil pôde ocupar amplamente a cidade-sede. 

  • 25 mil pessoas participaram da Cúpula dos Povos, reunindo mais de mil organizações globais na Universidade Federal do Pará;
  • Cerca de 3 mil indígenas formaram uma aldeia urbana em Belém;
  • A Marcha Global pelo Clima levou 70 mil pessoas às ruas com a mensagem “A resposta somos nós”.

Militarização e barreiras à participação

Apesar do avanço na presença social, a COP30 também enfrentou tensões. Organizações denunciaram militarização excessiva após manifestações indígenas, além de problemas recorrentes como:

  • Credenciamento rígido e pouco transparente,
  • Ausência de mecanismos eficazes contra conflitos de interesse,
  • Participação crescente do setor privado nos espaços de negociação.

Esses fatores alimentam preocupações sobre o déficit democrático e a captura corporativa do processo climático internacional.

Caminhos para continuar a ação climática e social

A COP30, embora centrada nas negociações globais sobre clima, também expôs com clareza um ponto essencial: a crise climática está profundamente conectada aos modelos de exploração de territórios, à violação de direitos humanos e às desigualdades estruturais que atravessam países como o Brasil.

Quando observamos o que foi debatido em Belém, desde a demarcação de Terras Indígenas até o enfrentamento ao racismo ambiental e a necessidade de proteger populações vulnerabilizadas, fica evidente que a luta por um clima seguro é, antes de tudo, uma luta por vidas, justiça e dignidade.

A COP30 evidenciou que não há justiça climática sem justiça territorial, e que crimes causados pela mineração predatória, como por exemplo Brumadinho, não podem ser lidos como “eventos isolados”, mas como expressões de um modelo econômico que precisa urgentemente mudar.

Da mesma forma, não há como falar sobre adaptação, resiliência ou transição justa sem considerar o impacto que grandes projetos extrativos têm sobre vidas humanas, especialmente trabalhadores, povos indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas.

Com o encerramento da COP30, torna-se ainda mais claro que o trabalho apenas começou. A conferência deixou avanços importantes, como o reconhecimento de afrodescendentes, os novos indicadores de adaptação e o fortalecimento da participação social, mas também evidenciou lacunas críticas que precisam ser enfrentadas nos próximos anos.

Por isso, é fundamental que governos, empresas, instituições e a sociedade civil não esperem a próxima COP para agir.

A implementação — palavra repetida inúmeras vezes ao longo da conferência — é o eixo central da década que se inicia.

Alguns caminhos que seguem urgentes no pós-COP30:

  • Acompanhar e cobrar os compromissos assumidos em Belém, especialmente os relacionados a financiamento, adaptação e demarcação de territórios.
  • Fortalecer o debate público, garantindo que temas como racismo ambiental, justiça de gênero, direitos indígenas e reparação histórica sigam no centro das discussões.
  • Apoiar iniciativas locais que promovam resiliência climática, proteção ambiental e educação para a justiça climática.
  • Fomentar a memória e o monitoramento social, fundamentais para evitar retrocessos e para assegurar que violações ambientais não se escondam atrás de discursos de sustentabilidade.

A COP30 reforça que a luta climática é também uma luta por direitos humanos.
E essa luta continua diariamente, nas escolas, nas comunidades, nos territórios tradicionais, nas organizações da sociedade civil e nos espaços de construção democrática.

Porque, como demonstraram as ruas de Belém, as aldeias indígenas, os debates da Cúpula dos Povos e a força das famílias impactadas por crimes socioambientais:

a resposta somos nós — e começa agora.