Em Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes, Helena Taliberti transforma luto e resistência em palavras. Ao revisitar a própria história e a de seus filhos, Camila e Luiz, ela também traz um olhar sobre os desdobramentos da tragédia de Brumadinho e sobre a importância de preservar a memória para que ela não seja apagada.

Neste artigo, Helena responde a questões sobre o que a motivou a escrever o livro, como foi lidar com esse processo de escrita e quais significados a obra carrega. Ao longo da conversa, ela fala sobre verdade, legado e esperança e sobre o que deseja semear em cada pessoa que encontrar estas páginas.

Um livro sobre luto e continuidade

A escrita do livro nasceu, para Helena Taliberti, da necessidade de preservar a memória de Camila e Luiz e de registrar uma história marcada por uma perda irreparável. Ao viver o luto, ela passou a buscar caminhos para lidar com a tristeza e a dor. Foi nesse processo que encontrou, na leitura de Quando coisas ruins acontecem a pessoas boas, de Harold Kushner, uma reflexão que a marcou: cabe também aos vivos manter viva a memória de quem partiu.

“Aí eu percebi que a única forma de viver o luto é imortalizar meus filhos, e escrever o livro é uma delas”, conta Helena. 

A partir daí, escrever se tornou uma das formas possíveis de continuar. Helena percebeu que contar a história dos filhos era também uma maneira de imortalizá-los, de registrar quem eram, os sonhos que construíam e a vida que ainda projetavam. Camila e Luiz estavam em um momento de realizações, fazendo planos e criando futuros quando tudo foi interrompido pela tragédia em Brumadinho.

Mas o livro não nasce apenas da vontade de preservar lembranças. Helena também sentiu que era necessário contar essa história a partir do olhar de quem foi diretamente atingida. Um olhar de mãe, marcado pela perda de dois filhos e pela ruptura abrupta de uma família.

Ao colocar essa experiência em palavras, Helena constrói um relato sobre luto, mas também sobre continuidade. Escrever passa a ser uma forma de manter Camila e Luiz presentes, preservar suas histórias e afirmar que, mesmo diante de uma ausência definitiva, o amor pode continuar produzindo sentidos e perpassando o futuro.

“Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes”

Seis meses depois da tragédia, quando o Instituto Camila e Luiz Taliberti já começava a ser construído como uma forma de reação ao que havia acontecido, Helena se deparou com uma frase que traduzia o sentimento daquele momento: “Tentaram nos enterrar, não sabiam que éramos sementes”.

A metáfora encontrou sentido imediato. Para Helena, a semente carrega em si a possibilidade de futuro. Independentemente de seu tamanho, guarda tudo o que precisa para se transformar em árvore, arbusto ou flor e estabelecer sua relação com o mundo ao redor. Foi nessa imagem que ela reconheceu também um caminho para seguir depois de janeiro de 2019.

A tragédia desorganizou profundamente sua vida, mas também impulsionou a criação do Instituto e a decisão de transformar a memória em ação. A semente, nesse contexto, tornou-se símbolo de resistência e da possibilidade de semear outros futuros  mais conscientes, éticos e comprometidos com a vida humana.

É também por isso que o título do livro está no presente. Para Helena, a tragédia não terminou em 25 de janeiro de 2019. A sucessão da tragédia continua fazendo parte da vida das pessoas atingidas, seja pela perda de familiares, seja pela destruição de modos de vida, casas, lavouras, animais e vínculos construídos com o território.

O presente do título também se contrapõe ao apagamento. Helena chama atenção para as tentativas de “virar a página” ou de construir narrativas que diminuam a gravidade do que aconteceu. Manter a frase no presente é, portanto, uma escolha de resistência: lembrar para que a tragédia não seja reduzida a um acontecimento do passado e para que histórias como essa não voltem a se repetir.

“Conjugar no presente é mostrar resistência. Não haverá apagamento, essa tragédia não pode ser esquecida, para que nunca mais aconteça”, afirma. 

Assim, as sementes que dão nome ao livro não representam o esquecimento da dor, mas aquilo que pode nascer a partir dela. São uma forma de olhar adiante sem deixar para trás o que aconteceu fazendo da lembrança um caminho para consciência, transformação e responsabilidade com o futuro.

Escrever para que a memória não seja soterrada

Para Helena, preservar a memória de Brumadinho também significa resistir ao apagamento. Com o passar dos anos, ela percebe que a tragédia volta ao debate público principalmente em janeiro, quando a data do rompimento é lembrada, ou diante de novos acontecimentos que remetem às circunstâncias daquele 25 de janeiro de 2019. 

Esse compromisso com a memória também se materializa nas ações promovidas pelo Instituto Camila e Luiz Taliberti. Entre elas, estão os Atos por Memória e Justiça, que levam essa lembrança para o espaço público e transformam a memória em mobilização coletiva. Em 25 de janeiro de 2026, quando a tragédia completou sete anos, o ICLT reuniu pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo, em um gesto coletivo de memória, defesa da vida e cobrança por justiça. A programação contou com atividades culturais, educativas e artísticas abertas a diferentes públicos, reafirmando que lembrar também é ocupar espaços, provocar reflexão e manter viva a busca por responsabilização. 

Essa preocupação também aparece quando Helena observa os debates atuais sobre mineração e transição energética. Para ela, é necessário questionar os impactos que continuam recaindo sobre pessoas, comunidades e territórios e não permitir que a busca por novas soluções aconteça sem considerar as vidas afetadas.

É nesse sentido que a afirmação presente no livro — “não vão soterrar a verdade” — ganha força. A verdade que Helena reivindica é, sobretudo, a de quem viveu e ainda vive as consequências da tragédia. São mães, pais, filhos, esposas, maridos e tantas outras pessoas que convivem com a ausência, o luto e os efeitos de um sentimento avassalador que não terminou naquele dia.

Ao contar essa história, Helena também retoma Mariana, ocorrido em novembro de 2015, como um alerta que, em sua perspectiva, deveria ter provocado mudanças capazes de evitar uma nova tragédia. A pergunta é direta: por que aquele aviso não foi suficiente?

Escrever sobre Brumadinho, portanto, carrega uma responsabilidade que ultrapassa sua experiência individual. O rompimento deixou 272 vítimas fatais e atingiu famílias, comunidades e territórios, destruindo tudo que havia pela frente. Para Helena, contar o que aconteceu também significa dar espaço à perspectiva de quem foi diretamente atingido.

Nesse processo, memória e prevenção caminham juntas. Preservar o que aconteceu é uma forma de honrar as vidas perdidas, mas também de manter a sociedade atenta aos riscos que permanecem. A própria história de Camila e Luiz reforça essa dimensão: eles estavam em Brumadinho como turistas, em uma viagem para conhecer Inhotim. Para Helena, lembrar disso evidencia que a tragédia poderia ter acontecido na vida de qualquer família.

“A memória preservada e exposta protege a sociedade de novas tragédias, além de honrar a vida de quem se foi de forma tão violenta. A morte deles não pode ter sido em vão.” Diz Helena.

O processo de transformar sentimentos em palavras

Escrever sobre a própria história também significou revisitar lembranças, emoções e perspectivas que, muitas vezes, ainda estavam sendo elaboradas. Para Helena, o processo de escrita funcionou como um “termômetro” daquilo que desejava contar. Ao retornar ao passado, ela reviu formas de enxergá-los e de compreender a própria experiência.

“O processo de escrita em si é um termômetro para o que se deseja falar. Contar a própria história é desvendar e rever pontos de vista sobre muitas coisas do passado”, explica Helena. 

Colocar tudo isso no papel, porém, esteve longe de ser simples. Relembrar o dia da tragédia e os acontecimentos que se seguiram foi especialmente doloroso. Em alguns momentos, Helena sequer conseguia encontrar palavras para aquilo que sentia. Diante disso, aprendeu a respeitar as pausas: deixava o livro descansar e, como ela mesma descreve, permitia que os sentimentos “decantassem” até que surgisse maior clareza sobre o que gostaria de transmitir.

A escrita também exigiu outro tipo de coragem. Não a coragem associada à bravura, mas aquela necessária para rever certezas, confrontar sentimentos e perceber novas perspectivas sobre a própria história. O processo, assim, foi marcado por movimentos de escrita e pausas.

Esse caminho ganhou ainda mais significado por se tratar de seu primeiro livro. Até então, Helena estava habituada à escrita de pareceres técnicos. Transformar o que chama de “linguagem do coração” em palavras representou um desafio completamente diferente, ainda mais quando algumas emoções pareciam nem sequer ter nome.

Nesse percurso, a terapia teve um papel importante para ajudá-la a organizar pensamentos e passar por cada fase do processo. Helena também buscou livros sobre luto e encontrou neles perspectivas diversas, reforçando uma percepção que sua própria obra também traz: não existe uma única maneira de viver uma perda. O luto é individual e não obedece a regras.

A construção do livro também contou com outras presenças. A editora acompanhou o desenvolvimento da obra, enquanto Vagner, marido de Helena, tornou-se seu primeiro leitor, contribuindo com sugestões e críticas ao longo do caminho.

Ao transformar uma experiência tão íntima em narrativa, Helena também encontrou uma possibilidade de encontro com outras pessoas. Para ela, contar a própria história pode fazer com que quem lê reconheça pontos de contato com a sua própria vida e perceba que não está sozinho. 

Camila, Luiz e o legado que permanece

Ao longo do livro, Helena também abre espaço para apresentar Camila e Luiz para além da tragédia. Ela compartilha lembranças da vida em família, aspectos da trajetória de cada um e a forma como ambos marcaram profundamente as pessoas que tiveram a oportunidade de conviver com eles.

“Quis mostrar quem foram Camila e Luiz, que tesouros foram na minha vida e como impactaram a vida de pessoas que os conheceram e conviveram com eles”, conta Helena. Assim, preservar a memória dos filhos não significa apenas lembrar o que aconteceu em Brumadinho, mas também manter vivas suas histórias, seus valores, relações e tudo aquilo que construíram enquanto estavam presentes.

Esse compromisso com a memória aproxima diretamente o livro da atuação do Instituto Camila e Luiz Taliberti. Desde sua criação, em 2019, o Instituto trabalha para que a tragédia e suas consequências não sejam apagadas e para que o legado de Camila e Luiz continue gerando novas ações voltadas aos direitos humanos e à justiça socioambiental. No livro, esse mesmo princípio ganha uma dimensão íntima e pessoal, a partir do olhar de Helena sobre a própria história.

É também nesse ponto que a metáfora das sementes volta a aparecer. Para Helena, elas representam a possibilidade de que novas formas de consciência, responsabilidade e esperança germinem a partir de cada pessoa que entra em contato com essa história.

Em um presente que ela descreve como marcado por incertezas e pelo questionamento de direitos, Helena encontra esperança em quem escuta, em quem lê e em quem decide transformar reflexão em atitude. As “sementes de vida” podem estar justamente nesses encontros, capazes de fazer com que a memória continue produzindo novos sentidos.

“Tenho a esperança de reconhecer as sementes de vida em cada um que me escuta, em cada leitor do meu livro. As sementes podem estar no princípio de novas vidas e trazem esperança.” 

Para ela, preservar o legado de Camila e Luiz significa apontar para outros caminhos possíveis e sustentar a esperança de futuros mais responsáveis com as pessoas, com os direitos humanos e com o meio ambiente.

Um livro sobre luto, mas também sobre continuar

Ao escrever, Helena pensou muitas vezes em quem encontraria sua história do outro lado das páginas. Com o tempo, percebeu que o livro poderia conversar com diferentes leitores e leitoras, mas especialmente com pessoas que também vivenciaram a experiência de uma perda.

Entre elas, estão as mães que perderam seus filhos e que, muitas vezes, convivem com uma expectativa social de que é preciso “superar” o luto. Para Helena, essa ideia não corresponde à realidade de quem perdeu alguém profundamente amado.

“Não há superação da perda. O luto precisa ser vivido. É um processo e aprendemos a viver com ele”, afirma.

Essa compreensão se estende a diferentes formas de ausência. Para Helena, cada pessoa vive o luto de uma maneira particular, e toda dor merece ser reconhecida e respeitada. Por isso, o livro não busca oferecer respostas prontas ou caminhos universais. Ele parte de uma experiência pessoal para criar um espaço de identificação, acolhimento e partilha.

“Escrevo também para trazer a esperança de que é possível continuar a vida apesar da incompletude, do desamparo, da saudade, da tristeza extrema, do mundo que ficou diferente e refratário à dor.” 

Essa esperança também aparece no que Helena deseja provocar em quem lê. Para ela, as páginas são um convite à reflexão sobre o valor da vida, sobre justiça e sobre a maneira como nos relacionamos com as dores e os direitos das outras pessoas. Reflexões que, em sua visão, podem transformar perspectivas e gerar novas atitudes.

Helena espera que leitores e leitoras possam se tornar “sementes de amor, de justiça, de consciência do mundo em que vivemos”, capazes de fazer germinar outras formas de olhar para a vida e para o futuro.

Para as famílias das vítimas e para todas as pessoas diretamente atingidas pela tragédia de Brumadinho, o livro carrega ainda uma dedicação especial. Helena espera que elas possam encontrar, em suas páginas, algum conforto e a certeza de que essa dor não precisa ser vivida em silêncio ou isolamento.

“Podemos vivê-la juntos, pelo tempo que for.”

Assim, Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes, fala sobre a ausência sem tentar diminuí-la. Mas fala também sobre aquilo que permanece, sobre os vínculos que continuam existindo e sobre a possibilidade de seguir vivendo sem deixar para trás quem fez e continua fazendo parte da nossa história.

O que Helena espera semear em quem lê

Ao chegar às últimas páginas, a ideia de semear ganha um sentido ainda mais amplo. Para Helena, contar essa história é também uma forma de reafirmar aquilo que considera essencial: o amor, a união, a solidariedade e a empatia. É um convite para olhar a vida com mais presença, reconhecer sua fragilidade e valorizar os vínculos enquanto eles existem.

Na introdução do livro, esse desejo aparece de forma direta. Helena escreve para que pais e mães amem seus filhos incondicionalmente, para que filhos possam sonhar e viver seus próprios caminhos e para que a vida não seja atingida pela indiferença. Escreve também para lembrar que o que aconteceu em Brumadinho poderia ter atingido qualquer família e para que tragédias como essa não voltem a acontecer.

Ao olhar para o futuro, Helena reconhece que pode haver desesperança, mas escolhe falar também em “esperançar”: continuar buscando sonhos, compreender as dores e acreditar que mudanças podem começar nas pequenas escolhas do cotidiano e ganhar dimensão coletiva.

É esse movimento que ela espera despertar em quem lê. Não uma esperança que ignora a dor, mas uma esperança construída a partir dela, capaz de gerar consciência, responsabilidade e novas formas de agir.

Ao apresentar o livro, Helena o define como uma história sobre sua vida com Camila e Luiz e sobre o que veio depois da perda: o luto, a saudade, a memória e os caminhos encontrados para seguir. Entre esses caminhos está o Instituto Camila e Luiz Taliberti, criado a partir do amor de amigos e familiares de Camila e Luiz e dedicado a manter vivo o legado dos dois por meio da preservação da memória, da defesa dos direitos humanos e da justiça socioambiental. 

Conclusão

No fim, Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes é um livro sobre a dor da ausência, e também sobre presenças. Sobre aquilo que permanece mesmo depois da perda.

O livro não busca encerrar a dor nem oferecer respostas simples para o luto. Pelo contrário: reconhece a perda, preserva a história de Camila e Luiz e reafirma a importância de não permitir que Brumadinho seja reduzida a uma lembrança distante.

Ao compartilhar sua trajetória, Helena também convida quem lê a refletir sobre o valor da vida, sobre a necessidade de proteger os direitos humanos e sobre o papel de cada pessoa diante de acontecimentos que não podem ser normalizados ou esquecidos. A memória, nesse sentido, não é apenas aquilo que preserva o passado, é também aquilo que pode orientar escolhas no presente e ajudar a construir outros futuros.

Preservar a memória de Camila e Luiz é manter vivo esse movimento: lembrar, questionar, transformar e seguir semeando para que outras histórias possam ser diferentes.

“Conto para que tragédias como essa não aconteçam mais, para que ninguém passe pelo que passamos, para que a morte deles não tenha sido em vão.” Helena Taliberti.